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Legado

"Não Trocamos Tempo Por Dinheiro"

“Entregar a chave da empresa aos funcionários significa dizer ‘nós confiamos em ti, nós sabemos que tu és responsável, caso contrário, não estarias aqui” (Joel Polesello)

Há 30 anos Joel Polesello acredita no potencial do ser humano para autogerir-se na vida profissional. Na foto, ao lado da editora da NOI, Caroline Pierosan, a quem concedeu entrevista  (Foto: Josué Ferreira) "Eu acho que uma pessoa feliz tem sucesso. Se tu estás tendo sucesso, automaticamente a tua face é a de alguém feliz. Passas a ter brilho no olho. E é isso que as pessoas seguem" (foto: Josué Ferreira) Joel Polesello ao lado do sócio Evandro Ballico. Juntos, eles fundaram a FOCCO Soluções de Gestão (Foto: Josué Ferreira) "As pessoas andam muito em zigue - zague. Perde-se muito tempo, produz-se muito pouco. Se você produz pouco e perde muito tempo, significa que você não é produtivo. Se você não é produtivo, você não vai ganhar dinheiro" (Foto: Josué Ferreira) "Se tu sabes exatamente o que tu queres e tens disciplina para cumprir tuas metas, tu inspiras as pessoas a te seguirem" (Foto: Josué Ferreira)

“Eu tenho cinco minutos”, declarou Joel Polesello, CFO e sócio fundador da FOCCO Soluções em Gestão, ao chegar, enérgico, para sua entrevista. “Ótimo, eu também!”, respondeu a editora da NOI Caroline Pierosan. “Dá pra mudar o mundo em cinco minutos!”, sugeriu ela. Riram. Joel Polesello é pura energia! Defensor da liberdade, organização e disciplina ele afirma crer que, assim, seguindo esses princípios, “qualquer ser humano pode chegar onde quiser”. Também com a mesma intensidade, defende que a felicidade no trabalho é o caminho para o sucesso. “Não trocamos tempo por dinheiro”, declara, emblemático.

Ao longo de sua conversa com a jornalista, Polesello perpassou marcos decisivos da história da empresa e projetou os desafios do futuro para a FOCCO. “Já vivemos a revolução do Windows, depois a da Internet, e estamos diante da revolução da Cloud (surfando essa onda), agora vem vindo um desafio muito grande, que é o da Inteligência Artificial”, assume. “Vamos ter que inovar muito para ‘entrar nessa’. Vindo também: Internet das Coisas e Big Data. Tudo isso já é real, mas ainda não se tornou ‘realidade coletiva’. Será o grande salto daqui para frente. Esses são os pontos aos quais precisaremos estar atentos e inovar, se quisermos ‘estar aí’ nos próximos 30 anos”, avalia, com “pés no chão”.

Embora muito sério, e esforçado para manter a postura cética, Joel “deixou escapar” diversos sorrisos ao lembrar-se jovem, ao lado de Evandro Ballico, com toda a coragem para defender aquele ímpeto que tinham, “a vontade de ser feliz”. Acompanhe o resgate de cenas emblemáticas e dos momentos mais marcantes dessa trajetória a partir da enriquecedora troca, que segue.

Caroline Pierosan: Dois jovens estudantes, com emprego seguro, num mercado em expansão, resolvem abrir mão disso tudo para fundar uma empresa. O que foi mais desafiador naquele momento?

Joel Polesello: Conquistar o mercado sendo tão jovens. Tínhamos conhecimento técnico, bastante interesse e um mercado muito amplo diante de nós, porque “a informática” estava ainda no início. O grande desafio era conseguir vender o que sonhávamos e a tecnologia, sendo tão novos. Como fazer com que acreditassem que falávamos de algo que era possível concretizar?

Naquele momento juventude e tecnologia eram coisas que não inspiravam credibilidade?

É! E um pouco, ainda, continua assim. Naquela época, geralmente, as pessoas que lidavam com tecnologia eram mais experientes. Eram poucos os profissionais da área e, os poucos que existiam, eram mais maduros. O curso de Ciência da Computação em Caxias do Sul tinha recém começado, na UCS. Então, como avançar no mercado? Como fazer com que as pessoas acreditassem nas possibilidades da tecnologia? Esse foi nosso maior desafio.

Hoje, qual o propósito da empresa?

O propósito continua o mesmo de quando iniciamos. Também a nossa cultura, aquilo que pensávamos em criar lá, quando jovens, hoje, segue presente. Ou seja, as pessoas precisam trabalhar com alegria, sendo responsáveis pelo que fazem. Embora fôssemos bem jovens na época, tínhamos o sonho de ter uma empresa diferente, onde os profissionais não trocariam tempo por dinheiro. A gente queria ganhar dinheiro, mas, também, queríamos que as pessoas que trabalhassem conosco o fizessem se divertindo. Esse propósito, mantivemos. O mais legal é o quanto tivemos uma atitude de vanguarda. Quer dizer, hoje, essa visão é muito atual. Há 30 anos, quem fazia isso? As empresas eram muito fechadas, muito quadradas, e a gente olhava aquele ambiente e pensava ‘não é isso que queremos, tem que haver uma forma de as pessoas trabalharem mais felizes, de se sentirem parte da missão, de terem um propósito nisso tudo’. Hoje, 30 anos depois, é o que mais se fala quando o assunto é Gestão de Pessoas. Era realmente um sonho e hoje eu vejo concretizado. A equipe é grande (em torno de 200 colaboradores), mas a gente conseguiu manter esse espírito, de família, de trabalhar todo mundo com o mesmo propósito, com a mesma ideia. Eu só vejo a FOCCO prosperando assim. Vejo o prosseguimento disso no futuro. Temos que trabalhar, temos muitas responsabilidades, somos cobrados, temos metas, os clientes precisam ser atendidos, precisamos surpreendê-los, mas, eu acho que, sendo feliz, é muito mais fácil alcançar tudo isso, do que por obrigação.

Vocês tinham alguma referência, naquela época?

Era uma visão nossa, até porque eu praticamente trabalhei em uma única empresa antes.

Também não se tinha tanto acesso à informação (como hoje) para buscar referências no mundo...

Tudo era muito mais fechado na época. Não existia ainda o Windows. Muito menos Internet. Então era tudo muito mais restrito. O que tínhamos era o sentimento de “não pode ser assim, eu não posso trabalhar por obrigação”. Queríamos ter liberdade para trabalhar, para criar, para inovar, para pensar diferente.

Não dá um certo receio entregar a chave da empresa para todo mundo?

Não. A chave foi, desde o início, um símbolo dessa liberdade que sempre proporcionamos. Então é assim, ‘pessoal, temos metas, temos objetivos, temos o cliente, que é exigente, e nós temos que surpreender; está aqui a chave, você entra a hora que quiser, sai a hora que quiser’. Nunca tivemos cartão ponto. Ouvimos muito: ‘vocês são loucos, vocês vão ter um monte de processos para atender, as pessoas vão dizer que trabalham dia e noite’... Mas sabes que não? As pessoas sabem valorizar quando são valorizadas. A chave da empresa significa ‘nós confiamos em ti, nós sabemos que tu és uma pessoa responsável, caso contrário, não estarias aqui’. Nós realizamos uma seleção muito criteriosa para agregar pessoas. Então, dizemos ‘se você quis estar aqui, e confiamos em você, por que você não vai ter a chave da empresa e não vai trabalhar a hora que quiser? Quer dormir o dia todo porque se sente melhor trabalhando de noite? Dorme o dia todo e trabalha de noite!’ (risos).  

Contanto que o trabalho seja bem feito...

Cumpra com suas metas, com seus objetivos, com suas responsabilidades.

Existe algo que vocês, numa autoanálise, consideram que ainda poderia ser inovado aqui?

Tecnologicamente temos muito para inovar. Os nossos softwares foram construídos ao longo desses 30 anos, período em que muita coisa mudou. Então nesse sentido sim. Com relação a gestão, hoje temos uma gestão muito moderna, acho que estamos num patamar legal. Acredito que novas metodologias de gestão virão, e que sempre precisaremos estar atentos a isso, mas o grande desafio hoje, para qualquer empresa, é agir buscando a inovação de seus produtos. E os nossos produtos são de tecnologia. Obsoletam muito rápido. Vivemos a revolução do Windows, depois da Internet, estamos diante da revolução da nuvem (e já conseguimos surfar essa onda), e vem vindo um desafio muito grande, que é o da inteligência artificial. Vamos ter que inovar muito para “entrar nessa”. Vindo também: Internet das Coisas e Big Data. Tudo isso já é real, mas ainda não se tornou realidade coletiva. Será o grande salto daqui para frente. Esses são os pontos aos quais precisamos estar atentos e inovar, se quisermos ficar por aí nos próximos 30 anos.

Pensando no futuro, qual é o potencial da empresa, no país e diante do mundo?

É muito grande. Não podemos dizer que o mercado de tecnologia é infinito, mas é grande, principalmente na nossa área - trabalhamos com gestão e com melhorias para nossos clientes. Nas empresas, no geral, ainda tem muita tecnologia para ser adotada. Temos que levar tudo isso a eles. O desafio é enorme, o mercado é monstruoso. Hoje temos muitos concorrentes provedores de software de gestão no Brasil e no mundo, inclusive players mundiais estão aqui, no Brasil, oferecendo produtos, concorrendo conosco. Mas o mercado é tão grande que tem espaço para todo mundo e para muitas empresas entrantes ainda. Ter produto de qualidade é o básico! O que vai nos diferenciar, é o atendimento, a nossa preocupação com o cliente, a vontade de fazer “algo mais”, de fazer com que ele ganhe mais dinheiro. Para isso tem muito espaço. Nossos clientes são nossos amigos e sempre vamos querer que nossos amigos prosperem. Se eles crescerem, automaticamente a FOCCO cresce! Se os clientes crescem, eles querem mais. Então existe um espaço na própria base de clientes da FOCCO que é monstruoso. Temos muitas empresas boas como clientes e temos um mercado enorme para atuar.

Tu és dono de uma empresa de tecnologia, e destacas a atuação humana como diferencial?

Sempre foi assim. Temos três pilares de sustentação, a satisfação interna, a satisfação dos clientes e o lucro. Não dá para dissociar o lucro disso tudo. Eu não posso ter só equipe, times satisfeitos e ter o cliente insatisfeito. Eu não posso ter clientes satisfeitos e a equipe insatisfeita porque a insatisfação logo chegará ao cliente. Se não houver lucro, não conseguiremos sustentar o time satisfeito e muito menos alcançar a satisfação do cliente. Então esse tripé é sempre o que a gente segue, desde o início. Temos que ter um time satisfeito, trabalhando feliz, os clientes surpreendidos e felizes, e lucro para conseguirmos perpetuar.

O lucro, então, não é um objetivo em si, mas uma ferramenta?

O lucro é um resultado. Mas, ao mesmo tempo, é ele que viabiliza que as pessoas sejam felizes e que os clientes estejam satisfeitos. Sem lucro, provavelmente tu não vais conseguir remunerar as pessoas como elas merecem. O cliente também não vai conseguir pagar o preço do teu custo se tu não tiveres uma gestão que dê lucro. Tudo está entrelaçado. Foi o que aprendemos com a vida. Quando começamos éramos simplesmente técnicos, entendíamos muito pouco de gestão. Apanhando e sofrendo foi que criamos isso tudo (e é claro que estudando muito também). Foi por isso que eu e o Evandro decidimos fazer, por exemplo, parte da primeira turma do MBA de Gestão oportunizada pela Fundação Getúlio Vargas em Caxias do Sul. Não adianta tu teres uma empresa de ótimas pessoas, pessoas motivadas, bons clientes, se tu não souberes gerir isso tudo. A gestão é muito importante. Isso também mostramos para o cliente. A gente mostra que, se ele quer melhorar, se quer render mais, se quer ter mais produtividade, ou estar melhor inserido no mercado ele precisa ter uma gestão eficiente. Aí, o nosso software se torna um meio. A consultoria é um meio, para que o cliente tenha a gestão de resultados. Mas, primeiro, nós precisávamos saber fazer. Então buscamos muito, estudando. Depois eu ainda fiz MBA em Gestão Financeira, sempre buscando sustentar o nosso tripé; gestão financeira, pessoas felizes e clientes satisfeitos.

Como um profissional que está hoje no mercado pode gerir bem o seu tempo?

Organização e disciplina, são esses os meus princípios. É preciso saber o que se quer, priorizar, e ter disciplina para cumprir. Vejo que as pessoas andam muito em zigue – zague. Perde-se muito tempo, produz-se muito pouco. Se você produz pouco e perde muito tempo, significa que você não é produtivo. Se você não é produtivo, você não vai ganhar dinheiro. Então se tu organizares direito os teus grandes objetivos e colocá-los no papel, se souberes onde queres chegar, traçares um linha reta e tiveres disciplina para isso, eu não vejo como um ser humano não chegará onde quiser. Eu tenho isso muito claro, se souber onde quer chegar, todo ser humano tem condições de alcançar suas metas. Mas ele precisa ter disciplina. Todos os dias tu és puxado para fora do trilho. Todos os dias tem coisas que acontecem, que tentam te dispersar, te tirar do teu rumo, mudar tua trajetória. Por isso a disciplina é muito importante. Vejo também que, se tu sabes exatamente o que tu queres e tens disciplina para cumprir, tu inspiras as pessoas a te seguirem. Elas observam que tu estás tendo sucesso, se espelham e se inspiram em ti. Passam a buscar também o que estás trilhando, pois você está mostrando que é uma pessoa feliz. Claro, eu sempre digo, o sucesso só vem antes do trabalho no dicionário (risos). É preciso trabalhar muito para se ter sucesso. Agora se tu trabalhares desfocado, desorganizado, sem disciplina, tu vais ter que trabalhar muito mais para, talvez, ter sucesso. Eu acho que uma pessoa feliz tem sucesso. Se tu estás tendo sucesso, automaticamente a tua face é a de alguém feliz. Passas a ter brilho no olho. E é isso que as pessoas seguem. Acredito que as pessoas só se inspiram em alguém, ou seguem alguém em quem elas enxergam que há felicidade e sucesso.

 

Assista ao vídeo dessa entrevista:

 

ENTREVISTA E EDIÇÃO I CAROLINE PIEROSAN
FOTOS I JOSUÉ FERREIRA
PRODUÇÃO I FERNANDA CARVALHO