Menu

Especial

27/05/2021

Vida Que Pulsa

“Nossa maior vitória foi no dia em que liberamos a mãe de uma colega de profissão, após 45 dias de UTI”

"Sem nós, membros da enfermagem, nada teria sido possível" "Hoje, o que mais nos desafia enquanto membros de equipe e profissionais da saúde, é a cronificação dos casos" "As experiências mais marcantes aconteceram agora, nos dois últimos meses, em que lidamos com o óbito de um médico muito querido por todos nós"

Sou enfermeira assistencial. Há cinco anos, aproximadamente, assumi a coordenação de enfermagem da UTI. Desde o início da pandemia, em março de 2020, a rotina da nossa UTI teve um salto de 360 graus, no que se refere a alterações necessárias. Isso nos obrigou a criar e adaptar protocolos já existentes, para garantir o melhor atendimento aos nossos pacientes, principalmente aos acometidos pelo Covid-19. No começo, sem informações corretas a respeito da doença, tivemos dias de extrema ansiedade e insegurança, mas precisávamos reduzir o medo das equipes. Individualmente, cada um pensava em como deixar os familiares distantes de tudo o que estava acontecendo. No decorrer do tempo, com informações mais precisas e uso de EPIS durante todo o período, pudemos não somente sentir, mas também transmitir segurança para as equipes e priorizar o que realmente importa, agora baseados na nossa própria experiência. Nos orgulhamos de ter passado longos meses sem que perdêssemos nenhum paciente. Nossa maior vitória foi no dia em que liberamos uma paciente, mãe de uma colega de profissão de outra instituição, após 45 dias de UTI. Em seguida veio outro paciente em condições semelhantes, com o mesmo período de internação, e também venceu a doença. 

Após esse período vários outros também conseguiram se recuperar, assim como, em situações mais graves, muitos não conseguiram. Após um ano e tanto de pandemia, conseguimos lidar melhor com o cenário todo, e, com a vinda da vacina e a administração das duas doses, pudemos, ainda com a manutenção de todas as medidas, nos sentir mais seguros em relação a ter sintomas brandos, e, principalmente, no controle do desafio emocional, tão presente durante todo o período. Uma das grandes, senão a maior preocupação, é justamente o peso de passar o vírus para alguém próximo, que amamos muito, ou então, de paciente para paciente por nosso intermédio, fato esse que, felizmente, não ocorreu em nenhum momento dentro do ambiente do hospital.

 Dos casos positivos ocorridos com os funcionários, o número de internações se resumiu a três somente (uma a gerente de enfermagem e duas técnicas), ocorridas na metade de 2020. Todos os demais casos foram tratados em casa, com resultado muito positivo para a cura. As experiências mais marcantes aconteceram agora, nos dois últimos meses, em que lidamos com o óbito de um médico muito querido, sendo pai do nosso administrador, o que nos causou profunda tristeza, justamente por representar uma extensão nossa. Sabemos que fatores externos tiveram relação direta com este óbito, como a presença de comorbidades, e a agressividade do vírus neste caso.

Mais diretamente no meu caso, a fase pior foi agora pois precisei me afastar, não porque eu tivesse adoecido mas porque minha família, a partir de um membro contaminado, sofreu com a contaminação dos demais, sendo necessário que eu atuasse diretamente com eles, não só como enfermeira, mas como alguém que os ama acima de tudo. Também recentemente nos solidarizamos com uma colega enfermeira que atua desde sempre na UTI. Fazia apenas dois dias que esta colega havia tido a felicidade de ver o irmão retornando ao lar após um longo período de internação em outra instituição, quando a irmã precisou ser internada e intubada, justamente na nossa UTI, durante o plantão dela. Sabendo que não teríamos como lidar com o emocional desta colega, achamos por bem que fosse substituída, pelo menos, durante o período mais crítico da permanência da paciente, que segue sedada, em ventilação mecânica. São realmente situações difíceis de administrar, pois fica impossível de separar o que é pessoal do profissional, por conta da relação de amor extremo e do perigo iminente da perda da pessoa. Pensando nessa situação de família, podemos avaliar o pânico dos familiares que nos confiam seus pacientes e que precisam acreditar nas informações que lhe são passadas, sem poder olhar de fato para o familiar, sem poder identificar se as informações são fiéis. Para alguém que não tem conhecimento no assunto, nem sempre essas orientações são claras o suficiente.

Para tentar minimizar a distância entre o paciente e seu familiar, temos o recurso das vídeo chamadas, porém, na maioria dos casos, em função de decisões médicas e das equipes, pensando na preservação de todos, inclusive na manutenção da esperança de ver o ente querido curado, elas não foram instituídas como rotina na nossa UTI, ficando a comunicação com a família restrita a informações passadas pela equipe médica e equipe de enfermagem. Para algumas pessoas o fato de saber o que acontece com o paciente é suficiente, porém, para outras, a intervenção do serviço de psicologia é necessária, sempre atuante nos casos de maior comprometimento e necessidade. Sem dúvida, o momento mais delicado de toda a trajetória é o óbito. Até agora sempre se conseguiu fazer a despedida com velório, procurando proporcionar conforto para as pessoas que compareciam para dar seu adeus e abraçar a família deste paciente, prestando solidariedade.

Hoje, para estes óbitos, o corpo não é exposto, sendo preparado e destinado ao enterro dentro do próprio setor onde ocorre, impedindo familiares e demais pessoas de fazer sua despedida pela visualização, o que gera sentimentos de revolta, ansiedade, insegurança e indignação, embora saibam que a situação assim o exige, como forma de preservar outras pessoas. Ainda hoje, o que mais nos desafia enquanto membros de equipe e profissionais da saúde, é a cronificação dos casos, resultando num grande percentual de óbitos. Esses são aqueles pacientes que saem do período de isolamento, porém, não tem condições para serem removidos da UTI, permanecendo por um período infinitamente superior ao estimado, com agravamento gradativo do estado de saúde, levando ao óbito posteriormente.

Podemos dizer que no decorrer da internação, com um olhar clínico aguçado, já conseguimos definir o paciente que terá uma evolução com sucesso e alta, daquele que cronifica e, mesmo com todo o empenho e esforço das equipes, irá a óbito por falta de resposta do organismo. Outra dificuldade enfrentada, não somente dentro do hospital, mas no dia a dia em geral, é o sentimento de negação que, embora com todas as informações disponíveis, ainda permanece em muita gente. Essas pessoas têm resistência a usar os EPIS de forma correta, não obedecem às regras de distanciamento social, não se adaptam a nenhuma forma de prevenção, independentemente de nível cultural ou classe social, favorecendo a contaminação de famílias inteiras por causa de suas atitudes irresponsáveis.

Diante de toda a falta de empatia e preocupação com o semelhante, as equipes de enfermagem se vêem com medo, mas, ao mesmo tempo, têm um compromisso assumido por força de um juramento na ocasião da formatura, e da promessa de preservar a vida acima de tudo, mesmo que isto exija a exposição da sua própria vida. “Um bom soldado nunca abandona a batalha antes da vitória”. Através deste pensamento cada qual ativa sua fé e sua esperança de dias melhores, de cura, de amor e de empatia. Ninguém de nós nunca imaginou passar por este cenário. Hoje o que vivemos é um ambiente de luto, não só como profissionais, mas como seres humanos que somos, com erros e acertos, medos e coragens, e avaliamos o que sentem as famílias, muitas vezes com informações insuficientes, incompletas, pouco esclarecedoras, sem saber o que esperar, pois seu paciente tanto pode ir a óbito quanto ter alta. E quando essa alta significa mais adaptações, como no caso do paciente que volta para o lar com sequelas e precisando de cuidados, sem que a família tenha a real noção dos fatos? Também temos responsabilidade na educação para estes cuidados.

Queremos fazer um apelo para que a população se coloque no lugar do outro. Praticar a empatia e o amor nunca será em vão. A vacina vai proteger sim, porém, mesmo com ela haverão casos de reinfecção pelas mutações do vírus. A esperança é de que não precisaremos ocupar os leitos de UTI, já tão escassos, pois as manifestações serão mais amenas, menos agressivas, nos garantindo uma recuperação com maior tranquilidade, desafogando o sistema de saúde. Lembremos que existem muitas outras patologias para serem tratadas, que também precisam destes leitos. Temos um bom período para que a maioria da população receba a vacina, então, que haja consciência coletiva da importância de seguir com as medidas de proteção. Seguimos com a fé e a esperança de que todo nosso esforço terá valido a pena. Ainda estamos num processo árduo de trabalho, mas sabemos que um dia poderemos olhar para trás com a calma (que hoje nos falta) e perceber que, sem nós, membros da enfermagem, nada teria sido possível. Esse é o verdadeiro sentido da nossa profissão, nem sempre percebido e valorizado. Juntos temos força, pois, quando um pensa em desistir, há tantos outros para apoiar, incentivar e motivar. Enfermagem é vida que pulsa... SEMPRE.

 

Sandra Pereira de Quadros Huff, 41 anos, Enfermeira formada pela UCS com 14 anos de atuação, casada, mãe de dois filhos, trabalha no Hospital Saúde há 11 anos