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Especial

Raul Anselmo Randon, Visão, Realização e Mito

O olhar do Fundador da maior empresa da Serra Gaúcha sobre o Brasil, sobre a atividade empreendedora e sobre seu legado nos negócios e na vida  

"A persistência é uma coisa fundamental, sem dúvida nenhuma, porque os negócios nem sempre vão bem" "Meu sonho é me manter ativo e ver a empresa seguir crescendo" "Se eu pudesse, faria tudo o que fiz de novo! Se eu pudesse, faria tudo de novo" "Entrei nos negócios da gastronomia porque tem duas coisas para as quais nunca vai faltar demanda, transporte e comida" "Eu gosto de ajudar os jovens. Se não fizermos isso, o que vai ser do país?"

Um suspiro antes de responder, ele reflete sobre cada pergunta. Às vezes, a resposta vem anunciada por um sorriso, em outros momentos por um franzir de sobrancelhas. Um misto de nostalgia e perspectiva, uma sincronia entre realização e expectativa. Perspectiva sonhadora sobre o futuro. Sim, aos 88 anos, tem o foco no futuro. Seja qual for a pauta da questão, uma coisa emoldura todas as expressões de Raul Randon: simplicidade. O que lhe perguntar? São tantas as curiosidades a respeito deste nome que virou mito! Do alto de suas quase nove décadas, ele sabe opinar sobre tudo. Interessado, perspicaz e espirituoso, Randon acompanha todos os raciocínios, entende rapidamente onde se quer chegar com os argumentos e prontamente contrapõe. Com a sagacidade de quem trabalha em atividade comercial, sabe ler a linguagem corporal como ninguém – um gesto com a mão, um olhar ao lado, um piscar mais intenso, nada lhe escapa. A seguir, o retrato de uma conversa simples e solta, entretanto profunda. Estar diante do fundador da maior empresa da Serra Gaúcha (Randon) poderia intimidar a muitos, mas, em sua bondade, ele nos recebeu com toda a cordialidade, tornando a tarde divertida e memorável. O privilégio de registrar uma hora exclusiva da atenção e das ideias de Raul Randon faz dessa edição uma publicação imensuravelmente valiosa. A seguir, um registro precioso, que poderá ser lido agora e por muitos e muitos anos, por esta e por tantas outras gerações.

“Quem começou a empresa mesmo foi ele, o meu irmão. Não teríamos nada disso hoje não fosse pelo Hercílio. Ele era muito inteligente. Olhava um projeto de máquina e já sabia decifrar como era feito”, enfatiza Raul Randon, toda a vez que menciona o irmão (falecido em 1989), ao lado de quem começou a empreender em 1949, aos 20 anos. Ao falar de sua história ele faz questão de relembrá-lo, em vários momentos. Pela narrativa viva de Raul, quase dá para imaginar os dois, lado a lado – um criando máquinas e outro abrindo caminhos, tendo novas ideias e construindo um mercado para a empresa que, mais tarde, seria um referencial para qualquer empreendedor brasileiro.

NOI: O que é mais importante, a parte industrial ou a comercial? O que leva o negócio adiante?

Raul Randon: As duas né! As duas… Se tu não tens uma boa parte comercial na tua empresa fica difícil e se tu não tens um bom produto industrial fica pior ainda. Ou as duas coisas vão juntas ou se atrapalham.

Vocês nunca tiveram um momento em que pensaram em separar a sociedade?

Não. Mas vou te dizer… Família, quando briga, dificilmente faz as pazes. Se não são parentes e se desentendem, ainda é possível renovar as coisas, recomeçar. Mas quando trata-se de irmãos, é muito difícil. Temos exemplos aqui em Caxias do Sul mesmo, de empresas que foram mal por conta disso. Uma briga de família pode fazer desmoronar os negócios. Não é o caso aqui, felizmente.

Qual o segredo para manter a família empresária unida?

Nós fizemos um trabalho na nossa família, formamos uma holding familiar. Eu dei tudo para os meus filhos. São cinco e todos são sócios desta holding. Mas nós buscamos pessoas especializadas para nos ajudar a organizar isso. Foram pelo menos três profissionais, altamente qualificados que nos deram consultoria.

Para a vida de um empreendedor é mais importante o talento, a formação acadêmica ou a persistência?

A persistência é uma coisa fundamental, sem dúvida nenhuma, porque os negócios nem sempre vão bem, principalmente no Brasil onde um dia está bom, outro dia está lá embaixo!  Então é preciso estar sempre “agarrado” no negócio. Mas o estudo faz bem, viu? Como eu estudei pouco eu senti falta! E recomendo sempre para a juventude.

O senhor sentiu falta de estudo?

Sim, eu senti falta. Estudei no “colégio” até os 13 anos. Eu trabalhava de dia e, à noite, eu tinha uma vizinha que dava aulas particulares, e eu estudava com ela. Fiquei uns dois a três anos tendo aulas com essa tutora, durante as noites, né! Não podia deixar de trabalhar de dia. Agora, eu tive sorte também… quer dizer, um pouco de visão para ir fazendo as coisas. Trabalhando no negócio você vai aprendendo. Às vezes não é só o estudo que conta. Tem pessoas que são “muito estudadas” mas na hora de fazer o negócios andarem, não sabem fazer.

Mas em que momentos o senhor sentiu que estudar mais lhe fez falta?

Às vezes em sociedade assim… na Câmara de Indústria e Comércio, por exemplo. Eu estava no Rio de Janeiro e me ligaram dizendo que eu tinha que assumir a presidência da Câmara de Indústria e Comércio. E eu disse “tu tá louco, eu não tenho estudo para isso”. Mas no fim insistiram e eu acabei pegando. Isso foi em 1975. Fiquei quatro anos na presidência, até 79. Aí a gente vê como o estudo faz falta… quando você entra numa associação e tem que cuidar dela. Porque ali você tem que lidar com pessoas formadas. Senti bastante, mas, como eu tinha coragem também, ia adiante (risos)! Atuei durante todo o período de construção da Câmara da Indústria e Comércio. Isso porque fui reeleito (fiquei dois anos e depois mais dois). Agora, se precisasse dizer que eu não tinha estudo, eu dizia! Eu sempre fui franco. Mas são muitas as coisas que a gente tem que considerar para se comunicar. Como uma pessoa fala, como se expressa. E também assisti a muitos cursos na Câmara de Indústria e Comércio. Muitas pessoas diziam “eu não vou lá ouvir aquela palestra, eu não sei de nada”, e eu sempre pensei que nestas palestras é que podemos adquirir grandes ensinamentos. Às vezes só numa frase que a gente absorve! Algumas palavras importantes… podem fazer valer o curso todo.

Hoje o senhor é Doutor Engenheiro em Gestão Administrativa, reconhecido pela Universidade de Pádua como Doutor Honoris Causa em Ingegneria Gestionale. Como é receber um título desses, concedido por uma das mais antigas e importantes Universidades do mundo, depois de ter sentido essa dificuldade no início da sua trajetória?

Os professores da lá vinham visitar a UCS e vinham me visitar aqui na empresa. Mas eu não sabia que estavam me avaliando para ver se me confeririam o título. Dai eu falei para eles da parte social da Randon e tudo mais. Mas eu não esperava, viu? Imagine! Foi aprovado pela Ministra da Educação em Roma… eu não esperava…

E o Senhor se sente um Doutor?

Eu me sinto eu mesmo! Mas eu fico, sim, muito orgulhoso de receber um título desses. O único outro brasileiro que recebeu esse título foi Jorge Amado, em 1996. São só dois aqui no Brasil. Ele e eu. Fico admirado, tu vês, nunca frequentei uma Universidade… e veja onde minha trajetória me trouxe. É o trabalho da gente! É fazer as coisas que precisam ser feitas.
 

O senhor que já passou por tantas coisas na vida, tantos momentos históricos, como avalia o mercado mundial hoje, com o advento da Internet?

Tem que ser mais rápido! Hoje tu pegas dois ou três telefones e falas com uma empresa na Alemanha, outra na Itália, é uma maravilha! E se enxergando ainda! Acredito que isso não seja tudo, ainda tem muita coisa por acontecer. Mas hoje, vendo toda essa tecnologia, fica mais fácil acreditar em Deus.

O senhor acredita que Deus teve alguma coisa a ver com a sua trajetória?

Eu sempre acreditei em Deus, sim…

E nesse país de cultura tão malandra, com tanta corrupção, como ser um empresário correto, que acredita em Deus, e ainda assim ir bem nos negócios?

Tem que ser correto na indústria e no que quer que seja. Um país nunca vai ser parelho, totalmente limpo. Por causa das crises… aí, nesses momentos, tu vês os clientes, aqueles que agiram sempre honestamente. Sempre acreditei que não se deve explorar na questão dos preços, mesmo quando a empresa vai bem. Nunca achei uma boa estratégia abusar. Já tivemos muitos casos de vender caminhões e uns meses depois o proprietário ter problemas de acidente, tombar o veículo. E aí, o que fazer? Para ele ganhar dinheiro e pagar a compra, só usando o caminhão. Então a gente arrumava para ele, para que pudesse voltar a trabalhar. Quantos desses que ajudamos, depois fizeram empresas grandes!? Vários! É por aí… 

Na sua trajetória o senhor se arrepende de alguma cosia?

Muitas coisas aconteceram por falta de experiência, sabe… Por exemplo, como lidar com as crises. Em 1980 o mercado estava lá em cima! Aí veio a crise do petróleo. Nossos pedidos caíram drasticamente. E a crise persistiu em 81 e 82. E nós não aguentamos esses dois anos… Em 1983 tivemos que pedir a concordata.

E como foi esse momento?

Foi triste. Nunca, na minha vida, esperava que fosse acontecer isso. Mas, enfim, precisei fazer. Eu devia cinco e tinha 12 de capital (por exemplo). Fiz isso para evitar a falência, porque os credores sabiam que iriam receber. Depois que nós entramos em concordata foi que aprendi realmente a dirigir a empresa. Naquela época nós estávamos com 6.000 funcionários contando os das outras filiais. Vendi todas! Ficamos apenas com 1.800 funcionários. Foi assim que conseguimos passar por aquele momento.

Basicamente o senhor se reeducou financeiramente, isso?

Isso aí. Aí começamos a produzir freios, veio o terceiro eixo do caminhão, veio o reboque… de um eixo, de dois eixos. É que o meu irmão fazia tudo isso. Ele que desenvolvia as coisas. Eu chegava para ele e mostrava “veja Hercílio, o que você acha de fazermos isso aqui?’ E era ele quem dizia se dava ou se não dava. Às vezes ele ficava debruçado muito tempo sobre um projeto de eixo, por exemplo. Então eu perguntava “e aí, está bom?” Se ele dizia que sim, eu puxava “então encerra que vamos para a próxima!” Se não, ele continuaria naquilo para sempre! Era tão perfeccionista que nunca “estaria pronto” (risos)! 

O senhor acha que o seu casamento foi importante para sua vida empresarial?

Com certeza! Sempre tive um trato interessante com ela. Eu lhe disse “quando eu ficar brabo tu fica quieta. Quando tu estiver braba quem fica quieto sou eu! Nunca pode os dois ficarem brabos ao mesmo tempo”. Ela me pediu para trabalhar aqui na empresa, mas eu pedi que ficasse em casa cuidando dos nossos filhos. Sempre acreditei que a educação deles era a gente que tinha que dar e sempre respeitei a autoridade dela diante deles. Cuidar dos filhos era mais importante que cuidar da empresa. Imagine! Não é como hoje, que largam tudo para os professores e depois ainda falam mal deles. A educação tem que sair de casa. Professor ensina outras coisas, ler escrever, etc. Deles, tínhamos que cuidar nós.

Como foi o processo de sucessão na sua empresa?

Eu penso assim. Tu tens que dar serviço para uma pessoa. Se ela tem condições e é inteligente, tu tens que deixar ela fazer. Tens que dar a missão mas também tens que dar confiança. Tu não podes querer sempre ter razão, tens que ouvir as razões deles. Se um filho vem e te apresenta um projeto, você não pode dizer que não serve. Aqui os meus filhos cuidam de tudo e eu estou muito satisfeito com eles. Ainda participo das reuniões para saber o que está acontecendo. Quando eu passei a presidência para o David, cheguei para eles e disse que não queria mais ser presidente mas que eu não iria escolher nenhum deles. E que eles deveriam decidir e se entender. Mas também que, depois, aquele que fosse escolhido, teria que ser ajudado pelos irmãos. Orientei que contratassem pessoas qualificadas que realmente fossem cuidar da empresa.

E o senhor está satisfeito?

Estou. Aqui em Caxias do Sul, muitas pessoas não souberam entregar as empresas para os filhos. Para você poder entregar a empresa para os seus filhos, ela tem que estar bem. Essa entrega tem que ser boa, correta, justa. Agora, muitas vezes é quando a empresa começa a decair que os donos passam aos filhos. Só que aí não adianta mais, pois a empresa já está descendo. Aí fica aquela história de que “o velho é que era bom” e os filhos não prestam. Se o momento da transição “passa do ponto”, fica muito difícil para um filho depois. Tem que entregar quando o negócio está bem, sempre.

Por que o senhor quis se envolver com os negócios agrícolas?

Porque tem duas coisas que nunca vão acabar: Transporte e Comida. E a minha empresa lá é grande, viu (risos)!

E esse Brasil de hoje?

Está difícil. Muito difícil. Em 2003, 2004, 2005, 2011, 2012, 2013 o mercado foi lá em cima. Não se dava conta da produção. Isso porque o governo deu muito crédito. Todo mundo usou o crédito que tinha nos bancos. O que acontece agora? O juro está lá em cima e ninguém vai mais comprar. Se tivessem financiado a 6%, 7% ao ano, naquela época, não dava aquela corrida louca! Não teria acontecido tudo isso… Bastava dar um prazo a mais para pagar e pronto.

Por que o Senhor sempre se importou tanto com o fator humano?

A pessoa que trabalha tem que ser bem tratada. Não é só salário. O salário é uma parte. Mas tem que cuidar também da saúde da família, dos estudos. Nós temos a nossa SSI que é uma companhia de saúde para todos os funcionários. Temos a Randon Previ também. Depois de um ano que o funcionário trabalha aqui a Randon deposita um valor sobre o salário da pessoa e ele deposita outra parte também. E então vai gerando uma previdência para esse colaborador. Pensamos nisso porque as pessoas não costumam fazer economia. Daí você pensa alguém que é acostumado a ganhar oito, dez mil por mês. Quando se aposentar não vai ganhar isso… então ele pode usar esse dinheiro.

Por que o senhor quis criar tantos projetos sociais?

Sempre gostei de ajudar os jovens.  Tudo começou com um juiz que me pediu ajuda para lidar com menores infratores. Então, mais tarde acabamos criando o projeto Florescer ampliando os objetivos. Eu acho que nós temos que ajudá-los. Caso contrário, você está vendo o que está acontecendo no país… Os jovens não querem mais trabalhar. Você vê a questão da internet. Eles acham que da noite para o dia vão inventar alguma coisa e vão ganhar um monte de dinheiro. Mas isso não vai acontecer com todo mundo.

Qual é o seu sonho hoje?

Ah! Eu continuo trabalhando. Mas o meu sonho é me manter ativo e ver a empresa seguir crescendo.

Nas suas viagens pelo mundo, o que o senhor viu de interessante que poderia estar sendo feito na Serra Gaúcha que ainda não acontece por aqui?

Eu não posso dizer isso porque o mundo tem sido explorado de todas as formas. Inclusive aqui. Não saberia dizer…

Se o senhor tivesse 15, 16 anos hoje e tivesse que começar sua vida profissional do zero, o que o senhor faria?

Faria tudo o que eu fiz, de novo. Se eu pudesse, faria tudo de novo!

Visão e Coragem : “Trabalhei quatro anos com o meu pai. Depois fui para o exército um ano e, na volta, em 1949, meu irmão tinha montado uma oficina pequena e eu fui trabalhar com ele (ele tinha aprendido o ofício de mecânico trabalhando sete anos em uma empresa pequena, de família). Meu pai fazia ferramentas agrícolas e meu irmão então foi trabalhar com essa outra família, para aprender o ofício de mecânico. Aí um colega do meu irmão deu a ideia de fazermos máquinas impressoras. Isso porque o tio dele tinha a livraria Rossi. Então fizemos 12 máquinas daquelas. E vendemos tudo! Isso foi em 1950. Em 1951 incendiou a nossa oficina. Queimou tudo! Tivemos que recomeçar do zero.  Então tinha a Gianela e a De Antoni que nos contrataram como fornecedores para trabalhar com os motores das suas máquinas. Fizemos um pavilhãozinho, de 12x20. Um amigo meu tinha uma olaria lá perto e forneceu os tijolos para a gente pagar quando desse. O Segala também nos ajudou, fez o projeto e construiu. Começamos em 1953. Na década de 70 nós já estávamos produzindo 700 carretas por ano. Aí fiz uma viagem para a Itália e vi que eles produziam 20 mil reboques por ano. Fiquei pensando, né… bom, o Brasil é uma país grande, 80% da carga nacional é transportada por caminhões, o país é cheio de estradas… Estou no caminho certo! Aí voltei e disse para o meu irmão – vamos abrir uma fábrica para fazer mil carretas por mês. E ele me disse – você está louco! E respondi, fica tranquilo, nós vamos devagar. Treze ou quatorze anos depois nós já tínhamos atingido essa meta de produção”

Entrevista : Caroline Pierosa I Fotos: Josué Ferreira