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Especial

27/05/2021

Nossos Primeiros Pacientes Foram Colegas da Instituição

“Ouvíamos falar que todos nós iriamos pegar e que muitos iriam morrer. Mesmo assim, não desistimos”

"Essa pandemia veio e nos mostrou o quanto a humanidade precisava sair da loucura da rotina diária, parar, olhar para si, e cuidar do próximo" "É indescritível ver a doença se agravando e perder um familiar"

Trabalho no Complexo Hospital Unimed e atuo na Unidade de Terapia Intensiva há três anos. Sou enfermeira e atuo diretamente na assistência e gestão, realizo a organização da equipe com um olhar global na interação do grupo multiprofissional que atende os 10 pacientes internados na Unidade. Tenho atentado para os cuidados e procedimentos prestados aos pacientes e treinando a equipe diante da nova doença. Repassamos e trocamos informações e conhecimentos para que juntos agreguemos um cuidado humano, de excelência. Nesse período de pandemia, aumentou muito a demanda de pacientes graves. Precisamos expandir as áreas físicas: onde tínhamos 20 leitos, passamos a ter 79, tudo para atender os pacientes que necessitam de cuidados intensivos. Nossa busca por conhecimento é constante, a fim de criar protocolos e capacitações, além do cuidado para que todos soubessem se paramentar com segurança.

O pânico, no início, fazia parte da nossa rotina. Tínhamos medo de nos contaminar, de contaminar os familiares e as pessoas com quem tínhamos contato. Não sabíamos muito o perfil da doença e ouvíamos falar que todos nós iríamos pegar e que muitos iriam morrer. Mesmo assim, não desistimos. Agora, a nova variante tem nos deixado novamente assustados pois o perfil de idade que ela atinge é de pessoas mais jovens que chegam em estado muito grave e não resistem às complicações. Nossos primeiros pacientes foram colegas da Instituição e isso foi muito difícil. Muitos chegavam para trabalhar chorando e não sabíamos como a tratamento terapêutico iria agir. Cada dia que passava a sua situação agravava e o pânico de perder os colegas era muito grande. Foi impactante ouvir o nome de familiares durante a passagem de plantão. O sentimento de impotencia diante da imensa responsabilidade pois quando chegam a ser intubados sabemos da gravidade e da instabilidade hemodinâmica. É indescritível ver a doença se agravando e perder um familiar. É triste não  conseguir devolvê-la viva à minha família .

A despedida do velório é mais triste que o habitual. Diante de familiares que choravam, não podíamos dar um abraço de consolo, pois as medidas de distanciamento e os protocolos de segurança ainda precisam ser respeitados. Fazia vídeo chamadas, era a forma que eu encontrava de consolar a minha família. A Dra. sempre me passava informações em tempo real então era o que eu repassava, mas me faltava coragem de falar quando o quadro clínico agravava.

Diante dos pacientes de UTI, que não podem receber visitas de familiares para lhes apoiar, nem mesmo para se despedir, sentimos como se fossemos membros da família, pois somos nós juntamente com a Psicologia que fazemos a ligação entre eles. Para mim uma das partes mais difícil é no momento em que entro para preparar os materiais e o paciente para o procedimento de intubação entramos no box dos pacientes paramentados de uma forma diferente, sejo no seu olhar sentimentos de  medo e incertezas.  Nos falam de sua vida, de pessoas, de filhos pequenos, ou filhos que moram em outro pais (e não os veem há alguns anos). Alguns são pais que lutaram para ver seus filhos formados, bilhetes escritos para serem entregues aos familiares .  Presenciei uma última ligação para a esposa se despedindo dizendo que foi muito feliz ao lado dela que ele a amava. Depois de muitos dias de UTI esse mesmo paciente não resistiu e veio a falecer. Presenciei a ligação e precisei auxiliar o procedimento com a máscara cheia de lágrimas. Nem sempre conseguimos contê-las. Muitas vezes pegamos  na mão dos pacientes e fizemos  uma oração, pedindo pela sua recuperação, evitando responder à pergunta que a maioria fazem “eu vou morrer? Por favor não me deixa morrer” Cuidem de mim ...

Por meio das vídeo chamadas conhecemos os familiares e a história de vida dos pacientes, isso cria vínculos fortes entre as equipes e família. Para a vídeo chamadas temos o apoio e a dedicação da psicologia. Sabemos que quando os pacientes chegam somos as pessoas em quem eles estão entregando toda sua confiança. Sentimos como se fossemos familiar encontramos forma diferente de transmitir o carinho ausente da família. Fazemos muitas orações junto a eles mesmo sedados conversamos com eles, dando coragem e força, entregando a vida deles na mão de Deus. Muitas vezes na hora da partida ficamos no lado da cama segurando sua mão pedido a Deus seu descanso, e que dê o consolo à sua família. Já realizamos, algumas vezes, a musicoterapia para pacientes despertando do coma induzido. Por vezes fazíamos a proteção do celular e colocávamos música durante a higiene pessoal, por outras vezes instalamos um pen-drive com as músicas preferidas do paciente. Assistíamos a reação dele ao despertar ouvindo-as, pois eram as músicas que tinha de costume de escutar em casa.

Também colocamos fotos de familiares penduradas no box para que vejam sua família quando acordam. Gravamos vídeos e mandamos pelo whats da família mostrado a recuperação, fazemos fotos de pacientes com a equipe e enviamos para que, de longe, possam participar do cuidado. Encontramos formas diversas de ameninar o sofrimento do paciente. Outras ferramentas que usamos são perfumes e cremes que os familiares nos trazem e que os pacientes costumavam a usar no dia a dia. Assim, ao despertar, também sentem seu perfume. Os familiares nos contam coisas sobre eles e vamos realizando na rotina, como o jeito de pentear o cabelo, de usar um batom... tudo isso tentamos realizar para agradar os pacientes. O mais desafiador, como profissional, é manter o psicológico em equilíbrio acalentar o medo e o pânico, olhar para o todo e perceber que mesmo diante de muito sofrimento também temos alegrias. Sentimos gratidão ao ver tantos pacientes recebendo alta e seguindo seus sonhos. 

Acompanhamos junto com todos os profissionais, diretores e administradores a preocupação do sistema de saúde de que o mesmo não entrasse em colapso, recebemos ligações em sequencia solicitando leitos de UTIs e remanejamos pacientes. Lidamos com lista de espera sabendo que se trata de pacientes graves muitas vezes jovens, que estavam dependendo de uma vaga. Agilizamos as altas e montamos os box o mais rápido possível para salvar mais vidas. Suspendemos procedimentos cirúrgicos eletivos para poder atender o máximo de pacientes que chegavam com COVID -19. Otimizamos os recursos físicos e medicamentosos para que não faltassem insumos. Mantemos a equipe unida e passamos confiança e consolo diante de situações complicadas que cada um enfrentava. Quando percebíamos que um membro não estava bem a equipe toda se unia para reergue-lo e assim passamos um ano e alguns meses juntos nessa luta incansável. Ninguém desistiu. Sim procuramos ajuda, mas não nos afastamos da nossa função. 

Pensando em minha vida, o mais desafiador tem sido o cansaço psicológico em situações algumas marcantes que nós  abala psicológicamente, pois o medo é constante . Sofri preconceito por ser da área da saúde. Percebi que pessoas na rua desviavam por medo que eu as contaminasse. A sobrecarga de trabalho e a exaustão física muitas vezes nos fazem desabar num choro para tentarmos sentir renovados. No inicio chorei muito, tive crise de pânico porque tinha muito medo de contaminar meu filho de cinco aninhos. Queria me isolar dele e de meu esposo. Lembro que decidi um dia que eles iriam na casa da minha sogra e eu ficaria. Então lá foi meu marido com meu filho. Uma hora depois voltaram os dois chorando pois não queriam ficar longe de mim. Chego em casa com medo de estar carregando o vírus. Separo roupa e calçado e tomo banho antes de entrar em casa.

Muitas noites adormeci e acordei de madrugada pensando em pacientes específicos que estavam em estado muito grave. A ansiedade não me deixava dormir. Certa manhã, ao entar na UTI, me deparei com um leito vago e a crise de pânico tomou conta de mim pois não me sentia preparada para receber mais um paciente e ouvir sua história, ver seu quadro clinico grave e ter que auxiliar em mais uma intubação. Foi quando o médico plantonista me chamou num box e pediu o que estava acontecendo comigo. Num gesto acolhedor me mostrou que estava precisando de ajuda então fui encaminhado para um profissional que pudesse me tratar, todo esse apoio encontrei dentro da instituição e na minha família . As pessoas não entendem a gravidade da doença, são irresponsáveis e acham que não vai acontecer com elas (principalmente os jovens que pensam em viver intensamente sem comprometimento com a sociedade). Falta empatia. Muitos estão se divertindo em festas clandestinas enquanto os profissionais de saúde estão há um tempo prolongado fazendo jornadas muitas vezes dobradas para prestar cuidado à população. Além disso, temos a mídia com informações equivocadas, causando pânico.

Muitas vezes sentimos o ambiente mais pesado, então nos reunimos num círculo e fazemos uma oração conversamos . Cada uma fala um pouco do que está sentindo. A psicóloga muitas vezes vem acompanhar nossa jornada e conversa com cada um individual. O afeto e a preocupação da família nos amparam na nossa chegada após a jornada de trabalho. Sabemos que eles sentem muito orgulho da nossa profissão. Temos muito apoio lá dentro (do hospital) entre colegas, coordenação e as pessoas da direção. Eles saem das suas salas e vem nos dar apoio. Nos trazem palavras de motivação e persistência. Isso demonstra o quanto somos importantes na instituição. A monitoria de enfermagem e coordenação de enfermagem andam diariamente do nosso lado e isso mostra o quanto se preocupam com nosso bem-estar físico mental e profissional. Os médicos plantonistas se aproximaram da equipe diante dessa pandemia, se preocupam quando percebem no nosso olhar que não estamos bem. Da mesma forma a equipe multiprofissional como um todo, a enfermagem a fisioterapia, a medicina, a nutrição, a fonoaudiologia, a psicologia, a assistente social a higienização e o CIH, a farmácia a secretaria do setor e todos os demais setores e profissionais se uniram de uma forma diferente para juntos possamos  enfrentarmos esse  momento difícil. Nosso lema é juntos somos mais.

Há pacientes que retornam para nos conhecer após a recuperação ou escrevem cartas de agradecimento. A população aplaude os profissionais envolvidos. Também assistimos o retorno de colegas que estiveram internados e voltaram a trabalhar atendendo as UTIs para cuidar de outros pacientes. Sempre amei meu trabalho e sou grata por ter escolhido enfermagem. Com esta pandemia pude perceber ainda mais o quanto somos importantes na sociedade. O corona vírus não escolhe classe social ou raça. Somos todos iguais. Percebi claramente que um abraço, um aperto de mão e um beijo fazem muita falta e que nossa fé, Deus e a nossa família são nosso porto seguro. Essa pandemia veio e nos mostrou o quanto a humanidade precisava sair da loucura da rotina diária, parar, olhar para si, e cuidar do próximo.

Registro minha enorme gratidão a todas pessoas que me apoiam diariamente, a minha família que não me deixou desistir, mesmo sabendo que corria risco de se contaminar com minhas idas e vindas ao hospital. Não se afastaram e não me abandonaram. Desejo que diante dessa pandemia as pessoas possam a aprender a cuidar de si e do próximo. Pois o combate à transmissão depende disso. Preservo a fé que vive em mim, e peço a proteção de Deus e de Nossa Senhora de Caravaggio, todo o dia ao sair de casa para o trabalho.

 

Luciane Balbinot Vieceli, 34 anos, enfermeira, graduada pela UCS há 8 anos