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Especial

08/07/2020

Mais Humanos

“Não são máquinas, são pessoas. Agora imagine isto, com crianças pequenas, os maiores tesouros que um pai e uma mãe podem ter...”  

Céres Albé foi uma das primeiras alunas da Escola Esconderijo Sapeca, há 20 anos, em 2000; depois, adulta, retornou à escola em 2018, atuando como educadora Primeira casa onde foi inaugurada a escola  Atual Sede da Esconderijo Sapeca "A atualização do projeto pedagógico da Esconderijo Sapeca propõe uma abordagem educacional a ser desenvolvida a partir dos ciclos de aprendizagem e experiência"  (Delcio Antônio Agliardi e Patrícia Giuriatti) "O brincar foi abordado como parte da vida e da formação deles, e também sempre foi uma ferramenta adotada pela escola para o desenvolvimento cognitivo, motor e social de uma maneira lúdica" (Adriana Maffi)

Vânia Marin Servelin

Recordo que, quando tinha 10 anos, e um irmão de 12, exaustivamente pedia para minha mãe ter mais um bebê. E ele veio, meu segundo irmão. A vida sendo a sua melhor versão, gerando mais vidas! Quando imaginamos uma criança pequena, um bebê, ou quando vamos falar/ouvir sobre os pequenos, parece que um gatilho é acionado em nós, fazendo automaticamente nossa sensibilidade ficar mais aguçada. Talvez seja o instinto de proteção surgindo ou simplesmente memórias da nossa própria infância sendo ativadas (principalmente se estas forem positivas). Fato é que por alguns minutos, nos tornamos mais Humanos. Na mulher há um desejo materno íntimo e natural de estar próximo a estes seres tão pequenos e delicados. Por isso a maior parte das pessoas que atuam em escolas infantis desde a gestão até as salas de referência, são mulheres. Não foi diferente comigo: há vinte e cinco anos, já na fase adulta de minha vida, após alguns trabalhos na gestão de RH, no ramo da indústria caxiense, me vi, lá pelas tantas, com um forte desejo de unir trabalho com prazer. E onde mais eu encontraria isto além destes espaços infantis de sonhos? Sim, encontrei isso que buscava em uma escola infantil. Parece que vinha no sangue, e não havia como escapar.

Imaginar uma escola como um negócio seria a parte mais fácil, já que contava com uma graduação em administração, e estudos posteriores em Gestão Escolar e MBA em Gestão de Pessoas. A teoria se repete, mas o dia a dia vai nos mostrando que, na área de serviços, você precisa testar suas habilidades o tempo todo, de forma ainda mais intensa, pois diferentemente de uma indústria ou um comércio, nos serviços você não pode devolver uma mercadoria, trocando-a por outra. Um gesto errado, uma palavra dita ou um ato, não há como simplesmente cancelar, ou apagar. Numa escola existem relações o tempo todo. Não são máquinas, são seres humanos. Agora imagine isto, com crianças pequenas, os maiores tesouros que um pai e uma mãe podem ter. Então vem o tempo, e te transforma. Ele vai nos trazendo experiências profissionais e pessoais impressionantes. Essas que nos deixam impregnados de satisfações em fazer parte de um mundo à parte, o mundo infantil.

Neste momento, um gestor de escola infantil já tem tudo traçado: seus objetivos, e aonde quer chegar. Já tem nítida a concepção de que a escola não é sua, e sim da comunidade. Já sabe qual seu papel na sociedade e como torná-la ainda melhor, e anseia por isso diariamente. O próximo desafio, é fazer com que as demais pessoas envolvidas no processo existencial da escola captem a essência dela, acreditem na visão e missão e carreguem isto diariamente em seus pensamentos e ações. E esta parte é difícil, porque cada um tem suas próprias crenças, e experiências que interferem, muitas vezes como um freio, dificultando a evolução. Fazer com que sua equipe acredite e comungue boas ideias e novas percepções é realmente um grande desafio, porém que, quando conquistado, traz um nível de satisfação e aprendizado que nunca mais você vai perder. É como cruzar a linha de chegada de uma maratona: ninguém tira do seu peito sua medalha, e, provavelmente, muitas outras serão acrescentadas! A vida realmente é linda! Amadurecer é maravilhoso! Resiliência, humildade e empatia. Estes são para mim Mantras Sagrados. É difícil imaginar evolução humana sem estes três elementos. É preciso sabedoria para perceber que fazemos parte (minúscula) de algo bem maior.

Atualmente, entendemos que a escola deva ser um espaço multidisciplinar, que permita que ali transitem inúmeras pessoas com diferentes conhecimentos, profissionais, estudiosos, artistas, pessoas que tragam novas experiências e novos ares. As crianças agradecem, à medida que, sem resistência, vão tendo novas oportunidades: um mundo novo que surge ali, na sua beleza e simplicidade. Elas são protagonistas de descobertas e novas interações o tempo todo. São a plenitude da vida, aos nossos pés... Quando permitimos que o novo se mostre, passamos a conhecer novas realidades em nosso fazer diário, permitindo que o nosso negócio evolua e que ideias vindas de novas gerações se apresentem. 

Nas escolas não deve ser diferente. Aprendi que existem dois universos distintos: os empresariais e os escolares. Distintos e muito distantes. Porém, descobri que poderia trazer do meio empresarial, para dentro da escola, detalhes e ideias facilmente adaptáveis, e com inúmeros benefícios, pois a escola também deve possuir no seu DNA o empreendedorismo. E, por assim se conceber, deve se reinventar constantemente, para sua própria subsistência e principalmente para atingir seus maiores objetivos: Transformar vidas e acolher seres humanos facilitando o autoconhecimento e intensificando o respeito pelo outro bem como auxiliar na evolução profissional de seus professores e demais colaboradores, contribuindo para a construção de um mundo melhor, para esta e para as próximas gerações... O sentimento é de gratidão por Deus me permitir estar há 25 anos à frente de uma escola infantil da qual tenho profundo orgulho! Também direciono minha gratidão a todas as famílias e profissionais que fazem e fizeram parte da grande família Esconderijo Sapeca. 

 

CICLOS DE APRENDIZAGEM E EXPREIÊNCIA 

O conceito de infância foi incorporado aos diálogos e às práticas pedagógicas da Escola de Educação Infantil Esconderijo Sapeca

Delcio Antônio Agliardi e Patrícia Giuriatti

“Em 2017 a direção da Escola de Educação Infantil Esconderijo Sapeca percebeu um cenário favorável para mudanças político-pedagógicas, provocadas por alterações na legislação e na conjuntura da educação infantil. Esse movimento coincidiu com o desenvolvimento de um trabalho de assessoria externa para a definição da visão de futuro da Escola, provocando diversificação de concepções e da forma de gestão escolar. A liderança da escola incorporou novos métodos de tomada de decisão, contando com a participação da direção, do serviço de psicologia e da coordenação pedagógica, mediada pela assessoria externa. O exercício de pensar o presente olhando para o futuro, possibilitou a revisitação da missão e da visão, criadas há duas décadas.

O conceito de infância foi incorporado aos diálogos e às práticas pedagógicas. As experiências educacionais com sabor de infância passaram a irrigar a comunicação interna e externa de modo que a escola passasse a ser um lugar de transformação de saberes e de produção de cultura infantil protagonizados pela criança. Esse processo de redefinição provocou uma ruptura com o que vinha sendo feito, levando a comunidade escolar a pensar e a atualizar o projeto pedagógico para a torná-lo coerente com as concepções assumidas.

O novo posicionamento assumido, antes mesmo da implementação, provocou deslocamentos da prática pedagógica, mudanças e desconstrução das certezas, impulsionando o diálogo e afetando o cotidiano nas suas diferentes dimensões: vivido, do concebido e do percebido (STECANELA, 2016). Dentre as mudanças mais significativas, a atualização do projeto pedagógico da Esconderijo Sapeca propõe uma abordagem educacional a ser desenvolvida a partir dos ciclos de aprendizagem e experiência. 

 

O BRINCAR COMO PARTE DA VIDA E DA FORMAÇÃO

“Eles se divertem e aprendem ao mesmo tempo, tendo o seu momento de infância respeitado”

Adriana Maffi, mãe da Melissa de 8 anos e do Pedro de 4 anos

“A Esconderijo Sapeca já faz parte de nossas vidas há quase 8 anos. Primeiro com a Melissa que ingressou na escola com 1 ano em 2011 e depois com o Pedro que iniciou com 9 meses no início de 2017. Nós sempre nos preocupamos com o bem-estar e carinho dado aos nossos filhos e, desde o início, era isso que procurávamos e prezávamos, que eles fossem cuidados com amor, valores, atenção e de acordo com as necessidades individuais de cada um. 

Sempre encontramos isso na Esconderijo Sapeca, traduzidos em amizades que a Melissa cultiva até hoje, pelo carinho que vejo que eles têm pelas professoras, colegas e todos os colaboradores da escola; compreendo que é reflexo do amor que sempre receberam e recebem. A Melissa tem o costume de falar para o mano ‘Aproveita que a Esconderijo é a melhor escola de todas, se eu pudesse voltava para lá!’, em referência ao tempo que passou na escola, onde ficou até a sua formatura, em 2017.

Durante todos estes anos a escola evoluiu, cresceu e se adaptou às mudanças que acontecem na sociedade e com as crianças, preocupando-se sempre com o desenvolvimento, felicidade e crescimento dos pequenos como seres humanos. A escola sempre atendeu nossas expectativas em termos pedagógicos, de formação e desenvolvimento dos nossos filhos, eles se divertem e aprendem ao mesmo tempo, tendo o seu momento de infância respeitado. O brincar foi abordado como parte da vida e da formação deles, e também sempre foi uma ferramenta adotada pela escola para o desenvolvimento cognitivo, motor e social de uma maneira lúdica.

A Melissa ficou na Esconderijo Sapeca até o término do pré e teve uma passagem muito suave para o Ensino Fundamental. A escola a preparou para essa mudança desenvolvendo a responsabilidade dela com as tarefas, lanches, e criando uma expectativa positiva com a mudança, fazendo com que o momento se tornasse esperado. A pré-alfabetização também foi tratada com base no desejo dela de aprender, sem a imposição de resultados, mas buscando o despertar do interesse dela pela leitura. Com certeza esse método foi importantíssimo para a sua alfabetização”

 

CONEXÃO ENTRE O EDUCAR E O VIVER PARA O MUNDO

“Carrego comigo a semente que foi plantada junto aos meus primeiros passos na Esconderijo Sapeca, como uma bagagem essencial que evolui a cada momento experienciado nas diferentes esferas da vida”

Céres Albé 

O conceito de escola de educação infantil vivenciado por mim, há 20 anos, é, de alguma forma, similar e distinto ao que vivemos hoje. Mudamos de século e, as primeiras experiências de socialização, rotinas, regras, aprendizados e processo pedagógico continuam como papel fundamental dessa entidade educacional. Todavia, as transformações contemporâneas demandam flexibilidade da conexão entre o educar e o viver para o mundo, permitindo uma experiência completa para as crianças da nova geração. Nas lembranças da infância vivida na Esconderijo Sapeca (sejam elas de felicidade e aprendizados, assim como a construção de relações humanas, independência e frustrações - essenciais para o crescimento) identifico o processo de construção da pessoa que sou hoje. 

Foi com a influência que recebi da Esconderijo Sapeca, das vivências dessa época, que busquei transmitir (no meu retorno à escola como adulta), para as crianças com quem me relacionei, todo o amor, acolhimento e ensinamentos, não apenas de âmbito educativo, mas também de enfrentamento para o mundo afora. Sempre quis que elas se sentissem capazes de conquistar e construir o futuro com consciência, respeito e, principalmente, da forma que desejarem. 

Destarte, como ser humano, indivíduo com possibilidades de influência na sociedade e futura psicóloga, carrego comigo a semente que foi plantada junto aos meus primeiros passos na Esconderijo Sapeca, como uma bagagem essencial que evolui a cada momento experienciado nas diferentes esferas da vida. Deixo meu agradecimento à esse espaço-mundo que me acolheu e à todos que fizeram parte dos ciclos que nele pude vivenciar.