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Especial

Liberdade Empresarial

Antônio Cesa Longo fala sobre inovação, independência política e sobre como desenvolver e realizar programas, projetos e eventos de vanguarda e de extrema relevância para os supermercadistas do Sul e do País

"O fim do varejo?". Isso não existe. Até isso acontecer eu não vou estar aqui e os meus filhos também não" (Antônio Cesa Longo). Foto: Josué Ferreira "O Brasil tem muita legislação, muito coorporativismo, muita restrição. É um país em que se vive em liberdade, mas não há liberdade empresarial!"(Antônio Cesa Longo). Foto: Josué Ferreira ""O fim do varejo?". Isso não existe. Até isso acontecer eu não vou estar aqui e os meus filhos também não" (Antônio Cesa Longo). Foto: Josué Ferreira "Não adianta falar de Brasília e observar a tua Câmara de Vereadores fazer algo errado e não dizer nada" (Antônio Cesa Longo). Foto: Josué Ferreira

À frente da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS) há 16 anos, e da rede de supermercados Apolo desde o início da sua juventude o empresário Antônio Cesa Longo (58 anos, natural de Porto Alegre, tendo morado já em Caxias do Sul, hoje com a sede de seus negócios em Bento Gonçalves) recebeu a revista NOI para uma conversa descontraída sobre a sua atuação na entidade, sobre gestão empresarial e sobre as perspectivas do empresariado diante das mudanças no cenário brasileiro. Desde que assumiu a AGAS, uma das entidades mais relevantes do Rio Grande do Sul, a atuação de Longo tem sido extremamente marcante como ícone de inovação, de independência política e de agilidade em criar, desenvolver e realizar programas, projetos e eventos de vanguarda e de extrema relevância para os supermercadistas gaúchos. A seguir ele explica também, porque, sendo tão bem sucedido à frente da entidade, não cogita, nem de longe, disputar um cargo político. “Eu me realizo vendo as coisas acontecerem!”. Acompanhe!

NOI: Por que dispor tanto tempo à frente dessa entidade?

Antônio Cesa Longo: É porque faço o que gosto! Tenho muita paixão pelo meu trabalho na AGAS. Mas, principalmente, acima de tudo, está o respeito. Tenho muito respeito por quem criou essa história. O Rio Grande do Sul é modelo para o Brasil no segmento dos supermercados e eu sempre acompanhei a construção disso. Por isso tenho vontade de continuar engajado. Iniciei na presidência em 2002, mas já desenvolvia um trabalho como representante da Serra Gaúcha antes disso. A AGAS foi praticamente iniciada em Bento Gonçalves. Quem teve a iniciativa foi o Moysés Michelon, juntamente com o senhor João Pagot e o nosso sempre lembrado e querido Jorge Ferretti (que foi o meu pai em Bento Gonçalves). Foram as pessoas que incentivaram os supermercadistas a se unirem criando uma entidade. Eu tinha esse sonho, de ser presidente da AGAS. Felizmente o realizei.

Você queria ser presidente da AGAS então?

Claro que queria! E trabalhei para isso!

Por que investir tempo envolvendo-se com uma entidade?

Porque você ganha aprendizados, todos os dias. A AGAS é uma grande escola e sempre me ajudou muito, impactando inclusive na minha vida pessoal. Até as minhas filhas, a cada eleição, perguntam, “tu vais continuar, pai?”, ou seja, elas não querem que eu saia. A AGAS fortalece muito os laços entre as pessoas. É até difícil falar porque, tu sabendo da dificuldade que o setor nos impõe… É um segmento muito competitivo, muito “trabalhado”. Então ali nós temos amigos, mas também concorrentes. Em uma mesa de reunião você é parceiro, e quando desce o elevador já volta a competir. Mas eu tenho muito respeito pelas pessoas que fazem história.

O que é que todos ganham com esse contato entre concorrentes?

Hoje vivemos uma realidade de mudança de hábitos de consumo. O Brasil tem muita legislação, muito coorporativismo, muita restrição. É um país em que se vive em liberdade mas não há liberdade empresarial! Você tem diversos “sócios”. Esse corporativismo prejudica. A simplicidade hoje está muito longe do entendimento do negócio. E é ai que a entidade é importante. É o ambiente onde você troca ideias e busca motivação. Nós tivemos um exemplo na ExpoAgas desse ano, em que, mesmo o Brasil vivendo a pior crise econômica da sua história, 65% das pessoas que estavam na feira acreditavam que não existia crise. Ou seja, na medida em que você vê o seu concorrente animado, comprando, fazendo negócios, na medida em que você conversa com ele, e escuta que ele vai abrir loja, que vai reformar, ai tu te animas: “eu também vou fazer!”. Então esse é o papel da entidade; de você aprender a escutar o seu concorrente. Para tu teres uma ideia, falei com um empresário essa semana cujo sonho era ter uma loja. Hoje ele está com 220 lojas. É isso, o Brasil tem tudo a fazer ainda! É um país de grandes oportunidades! Ai você ouve falar dos EUA. É o sonho de qualquer imigrante ir para os Estados Unidos. As pessoas arriscando a vida, morrendo afogadas, para cruzar a fronteira. Por que, se é um país onde está tudo pronto? Porque existe liberdade e facilidade no mercado. Há simplificação. No Brasil é o contrário. Tem tudo a fazer, muitas oportunidades mas, infelizmente, o corporativismo hoje não entende essa simplificação. As pessoas continuam insistindo em repor os quadros do corporativismo de 30 anos atrás, esquecendo que mudaram os processos. Então essa é a dificuldade do país. O Brasil é um país que tem na sua bandeira o lema “ordem e progresso” e infelizmente nós perdemos os dois. Percebo que o sonho das pessoas agora é buscar ordem para depois vir o progresso, e, por fim, o trabalho. O Brasil hoje é um emaranhado tributário. Cada Estado é um país. Hoje você não consegue abrir uma filial em outro Estado porque tem que ter outra estrutura tributária, e esse é o problema do país hoje.

Como a AGAS está formando os seus sucessores?

Temos o AGAS Jovem, ideia minha, que hoje é maior que a própria AGAS. São 130 associados ao AGAS Jovem, todos filhos e sucessores de empresários supermercadistas. A gente ouve falar por aí que o jovem não quer nada com nada. Isso é uma mentira. Se você coloca ele num meio em que as pessoas acreditam em dias melhores, o jovem também vai agir assim. Então nós já tivemos oito presidentes do AGAS Jovem que, felizmente, já estão fazendo parte da Diretoria da AGAS, já são responsáveis e coordenam diversos comitês como o de Tecnologia e Informação, o de Capacitação, o de Perdas e Rupturas, o Jurídico - todos coordenados por ex-presidentes do AGAS Jovem. Eles já estão formados para suceder!

Como a AGAS está lidando com a demanda por inovação, no sentido de atingir também o público consumidor jovem?

Em todo o processo de inovação há os entrantes, e nem todos são confiáveis. A entidade proporciona a oportunidade da troca de experiências e de você compartilhar os fornecedores de confiança, de você dar a dica para o seu amigo ou concorrente. A tecnologia é fundamental mas infelizmente alguns demoram mais a acertar por terem escolhido um parceiro errado. A AGAS realiza todos os anos a Infoagas, que é um evento de Startups. Nós queremos incentivar todas as novas empresas a se colocarem no Mercado de Tecnologia, para que, posteriormente, possam oferecer essa tecnologia ao setor, ou seja, fornecer aos supermercadistas.

Você poderia citar as principais grandes mudanças que impactarão o setor por causa da tecnologia?

Na minha opinião, o bom é que o setor não vai mudar. Ele vai se revitalizar e vai crescer. Eu tenho certeza que o olho no olho, a “barriga no balcão” não vai acabar nunca.  A necessidade das pessoas de tocarem no produto, de sentirem, sempre vai existir. É claro que outras tecnologias agregam. Mas o básico nunca vai se perder. O modelo que eu acredito é aquele que você possa antecipar a sua compra básica na Internet e ir no mercado pegar o seu produto já separado e precificado, já pronto. Mas já que a pessoa foi até a loja, ela vai “lembrar” de pegar outras coisas que ela precisa. Então essa questão do “fim do varejo”… Isso não existe! Até isso acontecer eu não vou estar aqui e os meus filhos também não.

O que outras entidades podem aprender com vocês, na Agas, nesse sentido?

Creio que uma coisa importante é que nunca aceitamos incentivos públicos. Qualquer proposta ou nova ideia que concebemos, submetemos à análise de técnicos primeiro. Então é uma entidade que tem muita credibilidade diante dos Governos. Quando um projeto nosso chega ao Governo, ele normalmente vai ser apoiado, porque vai estar totalmente embasado e fundamentado tecnicamente.

É um trabalho mais técnico do que baseado em influências?

A influência tem vida muito curta. São apenas quatro anos de influência. Dois para ficar influente, dois para usufruir da influência. Não vale a pena! (risos).

Por quais projetos da entidade você tem mais apreço?

A AGAS foi pioneira no Brasil nas Centrais de Compras, que são você unir os pequenos para realizar as centrais. Mas os eventos que mais nos motivam e emocionam são as formaturas. São os cursos de gestores no supermercado (tivemos mais uma formatura, recente, com 41 jovens). Os participantes ficam três semestres trabalhando, se deslocando até Porto Alegre para fazer o curso. A família acompanha feliz vendo o pai ou a mãe na formatura, recebendo o reconhecimento. Temos a escola móvel, que é a única no Brasil, que percorre todo o interior. Ela tem uma cozinha e uma padaria, oportunizando que quem está nas mais distantes cidades possa ter uma capacitação. Por exemplo, a gente sabe que tem pessoas que fazem 1.500 km de carro para participar de uma reunião. Sabemos que elas saíram da sua empresa para participar daquele momento do interesse de todos. Isso motiva muito!

Que nichos de Mercado poderiam ser mais bem explorados aqui na Serra Gaúcha?

A exemplo de Bento Gonçalves, eu acho que o turismo é a indústria que menos sofre com a crise. É a indústria mais limpa que há. O mais difícil é a gente copiar o que é simples. Tecnologia é algo que o dinheiro compra. Agora, as coisa simples, não é o dinheiro que compra, é o turismo que resgata. Em Bento esse Mercado já é bem explorado. Caxias poderia explorar mais isso. Se bem que temos que reconhecer que Caxias já faz muito tempo que tem o asfalto no interior. Isso levou muita motivação. O turismo vem para reconhecer e agregar a todas as outras atividades. Nós sabemos que podemos contribuir muito para o setor primário da Serra, por exemplo. A região hoje é referência para todo o Estado. Tem produtores rurais que precisam de apoio, precisam ser vinculados, precisa que o Mercado seja arrumado para ele comercializarem. Isso é algo que a AGAS pode fazer. Pode-se fazer para todos os setores. A Serra é referência para o Brasil. Então a AGAS pode ajudar muito os prestadores de serviço e o segmento da alimentação.

Você ouve mais questionamento por não “dar lugar a outro”, na presidência da AGAS ou se sente reconduzido naturalmente pela expectativa do setor?

Eu gosto de estar na entidade, porque eu trabalhei para isso! Mas evidentemente dou liberdade a todos de participarem da disputa. Eu sou meu maior crítico, me cobro muito de tudo. Sobre o que é que vão pensar… então a minha responsabilidade é fazer alguma coisa grande, é criar história, mas que as pessoas todas conheçam e respeitem a história. Então quando alguém diz que “o presidente não quer sair da presidência”… não é isso! É que a AGAS hoje é muito maior do que o presidente. É uma entidade que congrega mais de 80 mil pessoas por ano. O bom da entidade é que todos os projetos que ela realiza não têm nenhum patrocínio ou verba governamental. A Expoagas hoje é um evento que ocupa toda a capacidade hoteleira de Porto Alegre, inclusive mais do que a Expointer. E nós fazemos o evento sem nos comprometermos politicamente. Isso porque no momento em que você se compromete, você precisa retribuir. Só que a AGAS quer retribuir a toda a sociedade. Quer que todos tenham ganhos.

Você considera contribuir mais com a comunidade e com o país, futuramente, lançando-se a um cargo politico?

Não! Eu sou uma pessoa que gosta de participar, que tem esse espírito associativista, eu torço pelo sucesso de todos os setores (pois se todos se desenvolvem os supermercados vendem mais), mas a política está descartada para mim. Já o espírito associativista não, isso sim, já faz parte do meu projeto de vida. Quero participar não só na AGAS, mas também em outras entidades. Eu me realizo na entidade porque acho que aqui consigo realizar mais coisas, sem amarras. Eu me realizo vendo as coisas acontecerem!

Na sua visão, quais são as perspectivas para o Brasil a partir de 2019?

As pessoas estão com uma ânsia de mudança muito grande. Mas não adianta você exigir que o governo seja honesto e você não ser honesto. Vejo que nós estamos num grande condomínio. Não adianta falar de Brasília e observar a tua Câmara de Vereadores fazer algo errado e não dizer nada. Não adianta, por exemplo, proibir a sacola plástica, e não exigir da sua prefeitura uma coleta seletiva de lixo. A modernidade fez com que as pessoas criem muito lixo. Nós fazemos parte da cadeia, assim como o consumidor e a indústria também. A AGAS participou de projetos de conscientização da redução do uso de sacolas plásticas. Assim como a questão do canudo. Não vai ser a proibição do uso do canudo de plástico que vai resolver mas, principalmente, o fato de dar o destino correto. Pode até acontecer a proibição, mas tem que ter um período de conscientização. A conscientização sobre a questão ambiental é uma preocupação que nós temos, inclusive por isso realizamos, todo ano, um Seminário sobre Logística Reversa.

E quanto ao novo ciclo de Gestão da AGAS?

Hoje temos mais de 200 pessoas envolvidas na gestão da entidade. A AGAS é modelo para o Brasil, sendo pioneira em diversos projetos. A Expoagas é a única feira do Brasil em que participam representantes de todos os Estados. Tivemos 6.500 empresas participando desse evento (na última edição) oriundas de diversos Estados brasileiros e de mais 11 países. Temos responsabilidades com os novos comitês, e com todos os jovens que estão em atividade. Os supermercados recebem 4 milhões de pessoas diariamente em suas lojas no Rio Grande do Sul. Então a nossa responsabilidade é muito grande! É uma entidade que contempla gigantes e empresas pequenas. Tem empresas que faturam um milhão de reais ao ano e outras que faturam 20 milhões de reais ao ano, todas associadas à AGAS. Então, manter todos juntos, é o maior desafio! E só fazemos isso respeitando e entendendo a todos.

“O homem que tem uma mulher ao seu lado, com responsabilidade e participativa desse projeto, tem muito mais sucesso. As portas se abrem e as pessoas o enxergam de uma forma diferente se tem uma mulher que todos sabem que pode lhe apoiar, lhe aconselhar. As pessoas sabem que não vais “dar uma cabeçada” porque tens a tua companheira, os filhos, tens responsabilidades e compromissos, não só com os teus colaboradores mas, também, esse compromisso de coletividade. A própria AGAS é uma entidade forte porque a gente respeita a família” (Antônio Cesa Longo)