Menu

Comportamento

"Eu Congelei Meus Óvulos"

Embora jovem, saudável, e em um relacionamento estável (com planos para casamento no próximo ano), ela quis assegurar a possibilidade de ter filhos mais adiante  

"Considerei a possibilidade da adoção, mas ter um filho com a minha genética é importante para mim; Se eu realmente não tivesse como conceber, seria uma possibilidade" Priscila Silva Esteves "Acho que o congelamento de óvulos deveria ser encarado pelas mulheres como uma medida preventiva, e não só como algo procurado numa situação de problemas graves, ou quando já quase não há mais a possibilidade de conceber, perto dos 40 anos" Priscila Silva Esteves

“Eu acho que é bem legal falar sobre isso!”, adianta a professora Priscila Silva Esteves, 34 anos, natural de Porto Alegre. “As mulheres precisam ter conhecimento sobre esse assunto e sobre as possibilidades que a tecnologia e a medicina nos oferecem hoje para que possam optar com mais tranquilidade”, afirma a Mestre e Doutora, que gosta de organização e previsibilidade. Com um extenso currículo na área acadêmica e uma rotina pesada de trabalho, só agora ela resolveu pensar em casamento. “Vai ser no ano que vem (2020), mas ainda não temos data definida”, afirma a gaúcha que, há quatro anos mantêm um relacionamento estável (o início do namoro foi em 2015).

Nesse cenário, difícil imaginar como seria conciliar uma gravidez e todos os cuidados e atenções que um bebê pequeno requer. “Graduação, Mestrado, Doutorado – não queria ter um filho em meio a tudo isso. Entretanto, há o medo de o bebê ser concebido com problemas genéticos no futuro”, afirma. Foi por isso que Priscila resolveu realizar o congelamento de seus óvulos. “A primeira pessoa que eu procurei para me informar foi minha ginecologista mas ela não soube detalhar alguns aspectos, então, decidi buscar uma clínica especializada”, relata. Priscila conversou conosco sobre esse tema, ainda tão mistificado entre homens e mulheres, mesmo entre os mais cultos. Confira.

Caroline Pierosan: Você tem algum problema de saúde?

Priscila Silva Esteves:  Não. Tenho ciclos regulares, ovários e útero saudáveis.

Por que sendo jovem, saudável e tendo um relacionamento estável, você ainda não quis engravidar?

Porque quero estar casada e estabilizada. Não queria acelerar esse momento tão importante da minha vida por causa da questão da idade, por medo. Não penso em ter o bebê nem pelos próximos dois anos. Minha ideia é casar no ano que vem e não ter filho logo em seguida. Quero curtir meu casamento.

Como foi que você teve acesso a informações sobre essa técnica?

Tinha ouvido falar vagamente. Conversei com minha ginecologista e, a princípio, o que ela me disse é que as pessoas normalmente realizam esse procedimento quando são mais velhas. De acordo com ela eu poderia começar a me preocupar com isso só a partir dos 35 anos. Mas eu não entendi o porquê esperar para me preocupar. Queria estar tranquila desde já. A ginecologista não sabia tirar todas as minhas dúvidas. Por isso procurei uma clínica especializada.

Como você foi recebida na clínica especializada?

Foi bem tranquilo. A primeira consulta foi para esclarecimento de dúvidas. Achei bacana pois pude perguntar tudo (e eu tinha uma lista de questões) e também porque saí com o número do celular do médico que se fez totalmente disponível caso eu tivesse mais alguma dúvida posteriormente. Ele apresentou os dados e ressaltou que conforme a idade da mulher avança, a probabilidade de a criança ter problemas genéticos aumenta exponencialmente. O risco corre com o passar do tempo.

Que dúvidas tinha na tua lista de perguntas?

Então, diversas! (risos). Vamos lá! Se o fato de eu estimular e congelar muitos óvulos me faria ter uma menopausa precoce? Se eu congelasse os óvulos com 33 anos mas optasse por ter filhos aos 40 anos, a idade dos óvulos se manteria 33? Depois de congelados, qual o percentual de chances de os óvulos conceberem? Quantas tentativas eu teria que fazer e quantos óvulos sobreviveriam? Qual seria a diferença de congelar agora e daqui a quatro, cinco anos? Quais reações eu teria durante o tratamento (emocionais e físicas)? Entre outras... Um monte! (risos).

Como foi o tratamento?

Tive que parar de tomar a pílula anticoncepcional. Fiz um exame hormonal para verificar como está a contagem dos óvulos. Também uma ecografia transvaginal para avaliar os órgãos. Ai comecei o ciclo de consumo de medicamentos (injetáveis). Foram 20 dias de injeções na barriga, sempre no horário correto. Eu inchei um pouco, engordei cerca de 3kg em questão de um mês. Fiquei mais emotiva, tinha muita vontade de chorar. É como se fosse uma super TPM. Quando chegou perto da época da coleta o médico faz uma análise para ver quantos folículos estavam surgindo. Tomei outra medicação para proteger os folículos. Ai mede-se os níveis hormonais e marca-se a coleta. Ah, por mais ou menos uns dez dias não se pode fazer atividade física. Ai fui ao hospital, fui anestesiada, a coleta foi feita. Em seguida eles informam quantos folículos foram coletados. Quantos estão prontos para serem congelados. No meu caso cinco precisaram ficar numa incubação para ver se ainda evoluíam. Três evoluíram. Há um pouco de desconforto na coleta, como uma cólica forte. Pode haver um pequeno sangramento, mas é isso. Minha maior dificuldade foi aplicar as injeções em mim mesma. No começo eu pedia para outras aplicarem, mas a partir da 5º eu já tomei coragem e comecei a fazer sozinha.

Como foi a reação da tua família quando você explicou o que faria?

Achei que minha mãe, por ter um pensamento mais conservador, não entenderia. Mas ela super me apoiou. ‘Se tem tecnologia que podem te ajudar a evitar problemas adiante, acho que você tem que usfruir’, me disse ela. Meu noivo também me apoiou.

E como foi a reação das tuas amigas mulheres?

Logo que eu comecei a falar eu percebi que a informação não é clara na cabeça das pessoas. Muitas amigas vieram me perguntar a respeito e tinham muitas dúvidas. Até informação sobre preços e valores - as pessoas pensam que o tratamento é muito inacessível, que vai ser muito caro, que é melhor esperar. Sinto que a maioria das pessoas não tem a menor informação a respeito. Elas me pedem se ‘podem me perguntar sobre isso’, como se fosse um tabu. Eu recebo super bem, comunico bastante, não tenho nenhum problema em falar sobre o assunto. Mas, de fato, pouquíssimas sabem algo a respeito. Agora, depois que eu fiz o procedimento, tem uma outra amiga com a qual conversei a respeito, que também decidiu fazer, como forma preventiva (ela tem 35 anos).

Quem mantém financeiramente o congelamento dos teus óvulos?

Sou eu. Mas é um projeto de ambos, meu e do meu noivo. Eu optei por congelar só o óvulo (poderíamos ter congelado o embrião) mas eu, particularmente acho estranho pensar que o “bebê” está congelado. Até acho que deve ser uma ignorância minha pensar assim, mas... Coisa de valores, de crenças.

O tratamento é muito caro?

O investimento para recolher os óvulos (entre medicação e acompanhamento médico) gira em torno de 15 mil reais. Mas, agora, eu pago R$ 500,00 por ano para manter o congelamento.

Quando você optar por ter o filho, vais tentar primeiro, por vias naturais ou vais logo utilizar o óvulos congelados?

Não tenho planejamento com relação a isso – de tentar natural ou de já acionar meus óvulos guardados. Mas com certeza vou querer tentar ter o bebê. Se for mais ‘lá para frente’ não valeria a pena arriscar né (conceber naturalmente). Também não penso em esperar muito, creio que tentarei ter filhos por volta dos 40 anos, porque, se não, depois, fica muito difícil acompanhar. A pessoa (seu filho) vai estar adolescente e você vai estar com 60, 70 anos... é preciso pensar sobre isso.

Você conta com a possibilidade de os óvulos congelados não “vingarem” ?

Na verdade existe a possibilidade de não dar certo com os óvulos – se forem congelados dez, por exemplo, 40% ao descongelar já não sobrevivem – teríamos seis úteis. Desses, testa-se geneticamente os bons e, quando finalmente se realiza o procedimento de fertilização, se faz com dois ou três. Ou seja, seria praticamente uma chance só de conseguir! Por isso fiz dois ciclos de congelamento. Primeiro eu congelei dez e no segundo eu congelei 16. Tenho então 26 óvulos congelados. Caso não dê certo eu pensarei em outras possibilidades. Mas por segurança eu estimulei e recolhi 26 óvulos.

Você chegou a pensar em adoção em detrimento do congelamento de óvulos?

Considerei essa possibilidade. Mas ter um filho com a minha genética é importante para mim. Se eu realmente não tivesse como conceber, seria uma possibilidade – mas, hoje em dia, o bebê ser geneticamente meu, é importante. Eu tenho o sonho de gerir a criança. Quero ficar grávida. Acredito que o processo de gestação ajuda a pessoa a entender o que é ser mãe. Eu acho a adoção linda, e penso que tem que ser estimulada no Brasil (o tempo que se fica na fila de espera hoje é imenso), tenho uma amiga que quer adotar crianças de até 12 anos, e está há mais de seis meses na fila. O processo de adoção tinha que ser mais estimulado e menos moroso.

Como você se sente agora que realizou o procedimento?

Agora estou tranquila. Essa era uma preocupação muito grande minha. Mas agora meus óvulos estão lá, esperando. Eu não preciso me angustiar. Eu acredito que esse assunto deveria ser mais difundido. A gente vê, as vezes, pessoas ficarem anos tentando engravidar e sofrendo por não conseguir. Tantas outras com danos psicológicos por causa dessa questão, pessoas com traumas, sem conseguir dormir, porque falta informação. Esse tema é pouco difundido na sociedade. Ninguém sabe nem que existe essa possibilidade. A maioria das pessoas só vai pensar lá na frente quando já está mais difícil – quando a mulher está entrando na menopausa. Acho que seria legal que fosse mais estimulado - o assunto e as possibilidades. Assim, mais mulheres saudáveis poderiam optar. Nós, hoje, primeiro queremos nos estabelecer. E acabamos tendo filhos mais velhos. Com minha idade minha mãe já tinha duas filhas e minha avó já tinha três. Hoje não, primeiro a gente se estabelece para depois pensar em ter filhos. Então acho que o congelamento de óvulos poderia ser uma medida preventiva, e não só algo procurado numa situação de problemas graves, ou quando já quase não há mais a possibilidade, perto dos 40 anos. Quando as mulheres ficam “desesperadas” para ter filhos, acabam atropelando os planos da vida. Hoje, não há mais porque “acelerar” dessa forma.

Entrevista I Caroline Pierosan