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O Que os Seus Dentes Falam Sobre Sua Vida?

“O sorriso de alguém nos dá fortes sinais do que pode estar errado com o organismo da pessoa”, alerta o especialista e mestre em odontologia restauradora e estética Marcos A. Fadanelli  

"Por trás de problemas dentários, podem estar ocultas questões funcionais, neuromusculares, sintomas de estresse, e uma infinidade de indícios que nos falam sobre o estilo de vida do paciente" "A colocação de laminados cerâmicos ou de resina composta em um paciente que não está em equilíbrio funcional é um erro crasso, podendo causar danos ainda maiores ou que não existiam anteriormente" "O paciente precisa estar atento ao que lhe é recomendado como procedimento" "Sou extremamente a favor de promover um sorriso equilibrado aos meus pacientes. Coloco laminados cerâmicos (lentes de contato estão entre os laminados) há 23 anos. Acredito e recomendo tal tratamento" "A odontologia restauradora estética, sem um equilíbrio oclusal estabelecido, está fadada ao insucesso" "Um paciente tem que ser tratado de forma global ao passar por análise inicial e diagnóstico. Um dentista que só olha para os dentes, sem saber o que está causando determinado problema, gerará um ciclo restaurador ineficaz e infindável. Ou seja, restaurações que precisam sempre ser refeitas, quando, na verdade, o que paciente precisa, é de uma reabilitação integral"

“Um dentista não pode olhar apenas para os dentes. Ele precisa entender o que esses dentes falam sobre a vida da pessoa”, alerta Marcos A. Fadanelli, especialista e mestre em odontologia restauradora/estética, doutorando em materiais dentários, professor universitário e palestrante internacional. “Por trás de problemas dentários, podem estar ocultas questões funcionais, neuromusculares, sintomas de estresse, e uma infinidade de indícios que nos falam sobre o estilo de vida do paciente”, complementa. Para o especialista, os dentes nos dão fortes sinais do que pode estar errado com o organismo da pessoa. A visão de Fadanelli é importante, especialmente, por se tratar de um profissional focado em realizar procedimentos estético-funcionais.

“Um paciente tem que ser tratado de forma global ao passar por análise inicial e diagnóstico. Um dentista que só olha para os dentes, sem saber o que está causando determinado problema, gerará um ciclo restaurador ineficaz e infindável. Ou seja, restaurações que precisam sempre ser refeitas, quando, na verdade, o que paciente precisa, é de uma reabilitação integral. É comum ouvirmos deles que passaram por vários profissionais, e que ninguém nunca lhes falou sobre isso”, alerta, preocupado.

A seguir, Fadanelli fala a respeito do impacto do estilo de vida moderno sobre os dentes e sobre como é possível aperfeiçoar o aspecto do sorriso, porém, mantendo sua função e, principalmente, a integridade da saúde do paciente.

Caroline Pierosan: Você tem comentado sobre a situação, cada vez mais frequente, de pacientes muito jovens que chegam ao seu consultório com profundos desgastes nos dentes. Isso te preocupa? Por quê?

Marcos Fadanelli: Cada vez mais nos deparamos com pacientes jovens (15 a 30 anos) com problemas como gengiva retraída, dentes desgastados e fortes dores musculares e de cabeça (sinais e sintomas que não são compatíveis com suas idades). As queixas são referentes à hipersensibilidade dentinária cervical, dores na face, e algum tipo de desconforto na articulação temporomandibular (perto do ouvido). São resultados da vida moderna. Os dentes nos mostram alguns sinais e sintomas de envelhecimento precoce relativo ao estilo de vida atual. Dores nas regiões cervicais dos dentes, mesmo sem visualizarmos retrações gengivais ou lesões não cariosas de perda da estrutura dental, já são sinais de fadiga mecânica devido à sobrecarga oclusal. Quando as lesões cervicais não cariosas já estão nítidas nos dentes dos pacientes, é porque o desequilíbrio oclusal já está instalado, seja por fatores biomecânicos, biocorrosivos ou por uma associação dos dois, o que irá acelerar a perda do tecido dental, pois o estresse mecânico aliado à biocorrosão é o pior cenário para o desenvolvimento dessas lesões.

O que poderia estar causando isso?

Horas de conexão aos smartphones e computadores, recebendo informações de diversas fontes e cunhos. Eis a nossa rotina, que gera um quadro de distração, provocado por essa avalanche, onde é difícil concentrar-se realmente. Nosso cansaço mental é crônico e pode nos levar ao estresse. A ansiedade pode tomar conta quando planejamos diariamente o futuro, objetivando a perfeição e temendo o fracasso, sem sequer aproveitarmos o presente. Essa ansiedade gera angústias que, por sua vez, podem desencadear distúrbios relativos ao sono e à alimentação. Vivemos a cultura da perfeição, onde errar não é aceitável. Isso pode nos levar a grandes frustrações. Relacionamos o trabalho em excesso (e uma agenda lotada de compromissos) com produtividade, quando isso pode ser apenas um gatilho para o desencadeamento do estresse.

O que fazer com os dentes de pacientes jovens, que chegam nesse estado?

Para tratar os pacientes que apresentam os sinais derivados do apertamento dental, bruxismo e corrosão, precisamos deixar de olhar somente para os dentes. Precisamos começar a visualizar e compreender o paciente e seu sistema estomatognático como um todo e de forma individual. É importante sabermos como funciona o dia a dia dos pacientes que apresentam tais sinais e sintomas. Seus hábitos, suas profissões e o tipo de dieta que vêm tendo. Por exemplo: uma pessoa que frequenta a academia, toma isotônicos, tem vida noturna ativa, com ingestão de bebidas alcoólicas e energéticos, sofre um bombardeio de agentes biocorrosivos associados com fatores biomecânicos de apertamento dental durante os exercícios que realiza. Isso é apenas um exemplo de um estilo de vida que move uma grande parte da população jovem. Paralelo a isso, uma análise oclusal adequada é necessária, pois com a alta frequência dos casos de envelhecimento precoce dos dentes, vemos cada vez mais os pacientes com deficiência nas guias de desoclusão lateral e anterior. As pontas dos dentes caninos degastadas ou o seu mal posicionamento no arco dental, levam a uma situação de desoclusão lateral em um grupo de dentes cujas raízes não foram desenhadas para tal função, gerando forças oblíquas capazes de provocar profundas lesões nos pré-molares, assim como desgastes nos dentes incisivos.

Quer dizer, não basta tratar a estética, sem considerar, primeiro a questão funcional dos dentes...

O simples procedimento restaurador sem realmente tratar da etiologia das lesões, é vão. Me preocupa muito o volume de restaurações, sejam elas em resina composta ou cerâmica odontológica, sendo realizadas em pacientes que não estão aptos à recebê-las. A odontologia restauradora estética, sem um equilíbrio oclusal estabelecido, está fadada ao insucesso. E, mesmo com esse equilíbrio alcançado, não nos esqueçamos dos fatores biomecânicos e de biocorrosão, pois não estão a nosso favor e temos que saber como controlá-los. A utilização de placas noturnas bem ajustadas e balanceadas, controle da dieta ácida e diminuição da ansiedade e estresse são fatores que irão contribuir para o bem-estar dos nossos pacientes, assim como para a longevidade dos seus dentes e dos procedimentos restauradores realizados. Precisamos abrir os olhos para um cuidar diferente, dos nossos pacientes e das nossas vidas.

Nesse sentido, que cuidados pessoas jovens precisam ter no que tange a hábitos alimentares e rotina de vida?

A ingestão de alimentos ácidos deve ter baixa frequência. Troque o refrigerante pela água, não tenha como hábito a ingestão de isotônicos e energéticos. Não leve seu smartphone para a cama na hora de dormir. Pratique exercícios que lhe promovam um bom gasto energético, leia mais sobre assuntos que não têm a ver com sua profissão, converse mais e tecle menos. Só assim nos estressaremos menos.

Da mesma forma, existe hoje uma corrida pelo sorriso perfeito e uma busca massiva por tratamentos estéticos como clareamento e aplicação de lentes de contato dentais. O que é importante ter em mente na hora de optar por um tratamento estético?

Sou extremamente a favor de promover um sorriso equilibrado aos meus pacientes. Coloco laminados cerâmicos (lentes de contato estão entre os laminados) há 23 anos. Acredito e recomendo tal tratamento. Porém, só indico quando realmente vejo a necessidade. A colocação de laminados cerâmicos ou de resina composta em um paciente que não está em equilíbrio funcional é um erro crasso, podendo causar danos ainda maiores ou que não existiam anteriormente.

Você recebe pacientes no seu consultório que, já passaram por procedimentos estéticos com outros profissionais, e tiveram a funcionalidade dos dentes comprometida? Como uma intervenção estética pode comprometer a parte funcional dos dentes?

Sim. Os retratamentos são, infelizmente, uma realidade. O que mais vejo nos tratamentos inadequados são problemas relacionados à inflamação da gengiva e fraturas e desgastes relacionados à ausência de função adequada. O termo Lentes de contato foi descrito na literatura Norte Americana em 1995 por Friedmann. São facetas laminadas ou laminados cerâmicos extremamente finos. Nada de novo, apenas mais divulgado. Por serem extremamente finas, não podem ser colocadas em dentes com alteração de cor ou muito restaurados. É uma técnica muito sensível. Requer experiência. Muito cuidado com profissionais que prometem tal procedimento sem nenhum preparo (desgaste) dental. Pequenos preparos são necessários e devem ser realizados pelo dentista, preferencialmente, com lupas de aumento, para que se possa intervir minimamente no tecido dental, sem causar nenhum dano ao dente e promovendo maior longevidade à técnica restauradora. Lentes de contato coladas de forma inadequada, em dentes não preparados, irão gerar graves problemas de inflamação periodontal (gengiva e osso) e o paciente certamente terá que passar por nova intervenção.

Qual a responsabilidade do paciente ao optar (ou não) em realizar algum tratamento estético que está sendo recomendado pelo seu dentista?

Diante disso tudo, o paciente precisa estar atento ao que lhe é recomendado como procedimento. Sugiro questionar sobre os resultados que o profissional obteve a longo prazo, sobre as questões biológicas e funcionais. Converse com pacientes já tratados, veja casos realizados pelo profissional, enfim, informe-se! Quando o tratamento é bem realizado a responsabilidade cabe aos dois; profissional e paciente. As orientações devem ser passadas ao paciente previamente ao tratamento e a manutenção deve ser realizada pelo mesmo. Por outro lado, iatrogenias (tratamentos mal realizados, causando danos) são de responsabilidade do profissional. Deve estar claro que tratamentos de reabilitação estético-funcionais trazem muitos benefícios às pessoas. Aspectos de saúde geral, sociais, ausência de dores nos membros superiores, correção postural e melhora da auto estima, são alguns dos ganhos. É um investimento que trás muitos benefícios, quando bem conduzido.

 

Entrevista | Caroline Pierosan