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Arte & Cultura

Podemos Rir de Você?

Do lado de cá do mundo o temor dos chargistas não é o terrorismo; a censura é econômica e política

"Maneirar é uma coisa. Mas ser boicotado sistematicamente ou não poder tocar em certo assunto é complicado. Para que serve a charge então?" (Fredy Varela) "Quando criei o Radicci alguns se ofenderam dizendo que nem todo imigrante era preguiçoso e sujo, mas aí, depois perceberam que ele não retrata o imigrante, é uma caricatura. Com a Jaquirana Air também, já teve quem me disse - tu só fala mal de nós! Essa pessoa nem tem noção que, na verdade, estou promovendo o lugar!" (Iotti) "Existe limite ético para o uso do humor. Eu uso. Tem gente que não usa e que solta o verbo. Procuro dar uma filtrada, porque senão posso provocar danos" (Moacir Arlan)

A partir dos eventos violentos ocorridos na França no início deste ano levantou-se a questão: o humor precisa de limites ou é um recurso livre de qualquer impedimento e pudor, no qual tudo pode ser abordado, de todos se faz piada, sobre tudo se fala?

Questionados sobre o tema, artistas profissionais relatam experiências de trabalho e compartilham opiniões sobre ética artística. Apesar de pontos de vista diferentes, em uma certeza eles convergem – embora nossos “deuses” não tenham nada a ver com Alá ou Maomé, eles existem. Não são os fundamentalistas religiosos que os chargistas e ilustradores da Serra Gaúcha entendem que precisam temer. O cuidado é com os ‘divinos’ daqui:  empresas e políticos!

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Carlos Henrique Iotti, reconhecido cartunista gaúcho, usa o divino para fazer piada, sem maiores problemas. “Tenho dois personagens que são Deus e o Diabo e até já houve um jornal do interior do Paraná que se recusou a publicar esse trabalho por medo de ofender seus leitores. Mas normalmente todos levam numa boa”, relata.

Já quando o assunto se refere a alguma empresa, a situação é bem diferente conforme relata Fredy Varela. “Uma vez Caxias do Sul sofreu um blackout em um dos bairros mais carentes da cidade. Eu fiz uma charge sobre isso e ela foi aprovada. De noite, me ligaram da empresa jornalística dizendo que eu teria que mudar o conteúdo. Mudei. No dia seguinte tinha um anúncio enorme do fornecedor de energia no jornal. Entende?”. Sim, não é difícil fazer a matemática.

Fredy trabalha profissionalmente desde os 14. Já publicou sua arte em Bom Jesus, Canela, Folha do Sul e Caxias do Sul, onde atua hoje. Fredy colabora também com jornais de Gramado, Canela e Vale do Paranhana. “Houve um período em que passei a pegar pesado com a classe política. Até que, num belo dia, recebi uma ligação de certo prefeito pedindo para maneirar. A pessoa perguntou quem eu pensava que era, e disse que não gostava que eu o desenhasse nas charges. Tive um desentendimento com o editor do jornal por causa disso. Daí em diante ele passou a submeter meu trabalho à avaliação de outra pessoa”, conta. “Maneirar é uma coisa. Mas ser boicotado sistematicamente ou não poder tocar em certos assuntos é complicado. Para que vai ter charge então?”.

Iotti explica que, exatamente por isso, procura ter o cuidado de direcionar a crítica ou ironia sempre para um segmento e nunca para uma marca em particular. “Toda empresa jornalística, antes de ser jornalística é uma empresa. Tem que ficar atento pra não falar mal de algum anunciante e não tem jeito”, comenta o experiente artista.

“Hoje eu faço a charge, mas não me apego muito. Todo mundo tem tendência. Todo mundo vai para algum lado. Não existe ninguém isento. Perdi o tesão pela charge pela falta de liberdade”, afirma Fredy.

Mais Senso de Humor!

Moacyr Arlan publica charges e ilustrações há dez anos. Atualmente colabora com o Jornal Semanário de Bento Gonçalves e outros três veículos de comunicação de Marau, Guaporé e São Marcos. Ele afirma que procura filtrar assuntos quando se trata de questões religiosas ou políticas. ”Existe espaço para a brincadeira, a ironia, sem ofender. O que os caras fazem no Charlie Hebdo, por exemplo, é arriscado. Eles estão mexendo em feridas, sabem com quem lidam e se expõem demais”, argumenta Arlan.

“As charges deles via de regra carecem de conteúdo humorístico, muitas vezes é pura provocação. Tiraram os caras (muçulmanos) para inimigo e vice-versa”, critica. Arlan defende que, se usada como cobrança social a charge pode gerar ótimos resultados. “Depois do incêndio da boate Kiss, fiz uma charge sobre um prefeito da região que havia feito um churrasco em um lugar interditado pelos bombeiros. Ele reagiu super bem, foi em todos os veículos de comunicação pedir desculpas. Fiquei muito feliz porque o veículo não teve medo de expor a arte. Não foi provocativo, não ofendeu, foi apenas uma forma de cobrar e teve um resultado positivo”, comemora.

Iotti destaca o exemplo de Delfin Neto. “Ele foi ministro da economia do Brasil durante a ditadura militar e foi muito ridicularizado em charges. Ele colecionava os desenhos que faziam dele”, conta Iotti, dando risada.

Medo de Piada

Não há dúvidas de que a charge é uma estratégia excepcional para comunicar. O misto de arte – jornalismo - análise e crítica compõe uma poderosa ferramenta social. “Qualquer jornal que se preze tem que ter charge. Aqui no Brasil alguns veículos de comunicação ainda valorizam o chargista mas nem se compara com os Estados Unidos onde o artista se submete apenas ao editor chefe”, explica Fredy. “Lá a imprensa é muito ligada ao governo, e, ainda assim, os chargistas são bem isentos na maioria dos jornais. Eles são alinhados à linha editorial mas não são cerceados. Não posso dizer o mesmo daqui”, critica.

Ele compreende que o limite depende de cada comunidade. “Eu procuro evitar as piadas com a religião cristã, mas se pensarmos bem, a religião mexe com tudo, influencia a vida das pessoas de todas as formas, então porque não podemos mexer com religião?”, questiona.

“Existe o limite; é a questão da ofensa. A charge tem que ser inteligente e não tão escrachada. Eles (Charlie Hebdo) tocam o dedo na ferida e chegam a perder o contexto da graça, do humor. Parece um ódio racial, religioso, fica muito mais pesado do que se tivesse sido humor inteligente”, conclui.

Para Iotti, não existe limite no humor. “O humor por si só é uma coisa anárquica; se tiver uma forma já não serve. Isso está me assustando e me irritando. Tem muita gente dizendo bobagem. O artista não pode ter nenhuma responsabilidade. Não temos que ter respeito por ninguém”, afirma, para, em seguida, revelar um certo pudor pessoal. “Eu não faria uma coisa tão agressiva como os cartunistas do Charlie Hebdo, por exemplo, porque não é da minha índole, mas admito que outros o façam”, explica. “Acredito que esse tipo de humor mais agressivo tem que existir; consome quem quer”, justifica. “Se alguém se sentir ofendido por alguma charge, que tenha uma reação na mesma medida. Entre na justiça, por exemplo, este é pra ser um mundo civilizado, não é?”, questiona.

“O que é pegar pesado?”, desafia Fredy. “Isso não existe. Quer algo mais pesado do que a pregação dessas religiões de que se tu não fores cristão ou islâmico tu vais queimar no inferno e sofrer por toda a eternidade? Eles podem nos dizer isso e nós não podemos fazer piada do tal Deus?”, questiona, apesar de não concordar com o estilo de trabalho do jornal Charlie Hebdo. “Não me agrada mas acho que eles têm o direito de fazer isso. Existe a Lei para julgar se eles passaram do limite ou não. Eu não faria, mas a liberdade permite que eles façam”, defende Fredy.Arlan assume uma postura bem mais amena. “Vou usar essa arma (a charge) para produzir algo bom para a sociedade, não simplesmente fazer uma ironia por nada. Existe limite ético para o uso do humor sim e eu faço uso dele. Procuro dar uma filtrada, porque posso provocar danos”, conclui.