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Adriana Schio

Robôs: onde, como e quando?

Automação robótica avança no mundo, com aplicações e ganhos em diversas áreas

"Antes de implementar a robotização na indústria é preciso definir bem o que será feito, como será feito, quando será feito e quanto pode custar. Parece simples, mas a maior parte dos casos de insucesso são gerados por não serem analisados esses fatores" (Juarez Fochesatto, diretor da Powermig, integradora de robôs de solda Panasonic) - Foto: Diogo Sallaberry "Com investimentos em educação e na indústria, países como a Coreia do Sul alavancaram a economia. À medida que a educação foi avançando, as pessoas foram sendo aproveitadas em atividades intelectuais e o restante foi automatizado" (Edouard Mekhalian, diretor geral da Kuka Roboter no Brasil) Idealizado pelo empresário caxiense Fábio Rezler, o Bionicook é o primeiro fast-food do Brasil totalmente automatizado, no qual o atendimento e preparação são feitos 100% por um robô A Hugo Pietro, indústria de sucos de Galópolis, em Caxias do Sul, é um exemplo que comprova a aplicabilidade da robótica em companhias de menor porte O primeiro robô industrial do Rio Grande do Sul foi instalado na Tramontina A automação está presente no nosso cotidiano mais do que imaginamos ou percebemos Robôs que preparam comida, auxiliam médicos em diagnósticos e procedimentos cirúrgicos, atuam em dutos de petróleo, realizam tarefas domésticas, produzem bens duráveis

Eles estão em ambientes que muitas vezes nem imaginamos. Robôs que preparam comida, auxiliam médicos em diagnósticos e procedimentos cirúrgicos, atuam em dutos de petróleo, realizam tarefas domésticas, produzem bens duráveis. As aplicações da robótica já são as mais diversas e complexas, embora a mais conhecida e difundida ainda seja na indústria, especialmente na fabricação de automóveis. Mas o que são de fato esses equipamentos que ganham status de robôs? “Robô é uma máquina como qualquer outra, mas que se diferencia porque a sua concepção é com base no braço do ser humano, possuindo vários alcances, portes e capacidades, para executar atividades como manipulação, corte, dobra, solda e paletização, no caso da manufatura”, define Edouard Mekhalian, diretor geral da Kuka Roboter no Brasil, entre os maiores fabricantes mundiais de robôs industriais.

O termo tem origem na língua tcheca (robota), tendo seu significado relacionado a trabalho forçado. O desenvolvimento dos primeiros exemplares começou há mais de 50 anos, a partir de modelos hidráulicos, pouco eficientes, pouco produtivos e bastante caros. Logo em seguida surgiram os primeiros braços robóticos com motores elétricos. A partir daí, os robôs se tornaram bastante comuns na produção industrial, especialmente nos países mais avançados e desenvolvidos. Aos poucos e ainda muito timidamente, eles vêm ocupando o cenário dos países menos desenvolvidos, como o Brasil. Na área industrial sua aplicação tem sido difundida nos mais diversos segmentos e portes de empresas, substituindo o homem ou complementando a operação fabril em tarefas repetitivas, hostis, insalubres e perigosas, que causam lesões ocupacionais por repetibilidade, esforço físico ou ergonomia. As vantagens da sua utilização costumam ser exponenciais, indo da padronização a ganhos de qualidade e produtividade, redução de custos e aumento da competitividade. A robótica colaborativa, por sua vez, oportuniza a interação homem e máquina, ou seja, equipamentos que trabalham em colaboração com o ser humano, dando suporte em atividades que são repetitivas, desconfortáveis ou que exigem esforço contínuo. Os robôs colaborativos costumam ser utilizados quando a habilidade humana ainda é necessária, pois, além de complexa, tem custo ainda elevado se automatizada. Um exemplo são processos de manufatura como a montagem de componentes em celulares, tablets, notebooks e eletrodomésticos.

Temas de casa – Que a automação é um caminho sem volta não restam dúvidas. Mas antes de sair robotizando processos e a empresa por modismos, mero desejo pela evolução ou aposta na queda dos custos, especialistas alertam para questões importantes. “O que precisa ser analisado em uma indústria antes de implementar um processo robotizado é definir bem o que será feito, como será feito, quando será feito e quanto pode custar. Parece simples, mas posso afirmar que a maior parte dos casos de insucesso são gerados por não serem analisados esses fatores em profundidade”, afirma Juarez Fochesatto, diretor da Powermig, integradora de robôs de solda Panasonic, com sede em Caxias do Sul. Gilvan Menegotto, diretor de negócios da caxiense Auttom, complementa: “As empresas primeiramente precisam saber onde querem ir. Isso é básico, mas nem todas sabem. Muitas agem pelo comportamento de manada. Há empresas sem aderência para ter robôs. É preciso planejamento estratégico e alinhamento com o modelo de negócio. Tendo isso, a robótica traz muitos benefícios. Caso contrário, o investimento não trará o retorno esperado.”

Empregos x robótica – O Brasil ainda está muito aquém dos países desenvolvidos quando o assunto é automação robótica. Dados da Associação Internacional de Robótica (IFR) apontam para uma média mundial de 80 robôs para cada 10 mil trabalhadores. Enquanto a Coreia do Sul conta com 780 robôs para uma proporção de 10 mil pessoas e Japão e Alemanha com 330, no Brasil esse número não passa de 12 robôs para 10 mil habitantes. O mundo todo produz aproximadamente 380 mil robôs/ano e somente a China é responsável pelo consumo de 140 mil unidades (um terço da produção mundial). Já o mercado brasileiro não tem mais do que 38 mil robôs instalados. Ainda assim, praticamente não há desemprego naqueles países, enquanto aqui temos convivido com taxas anuais acima dos 12% – colocando em xeque a discussão de que a robotização tira postos de trabalho. “Países como a Coreia do Sul fizeram a lição de casa há 25, 30 anos. Com investimentos em educação e na indústria, alavancaram sua economia. À medida que a educação foi avançando, as pessoas foram sendo aproveitadas em atividades intelectuais e o restante foi automatizado”, assinala Mekhalian.

No Brasil também não temos fábricas de robôs (justificado pela baixa demanda). Outro ponto-chave é a pequena quantidade de empresas capacitadas para fazer a engenharia de automação e integração de robôs industriais nas fábricas brasileiras – temos cerca de 100 organizações de pequeno e médio porte para fazer esse tipo de implantação, enquanto na América do Norte, a título de comparação, são cerca de 2 mil empresas. Ou seja, a capilaridade que esses países têm para escoar robôs para o mercado é enorme. O gap existente no mercado brasileiro aponta para muitas oportunidades a serem criadas e exploradas.

 

Grupo Tramontina
O primeiro robô industrial do Rio Grande do Sul foi instalado na Tramontina. Da marca alemã GdA, mais tarde adquirida pela Nokia (empresa de telefonia celular que na época possuía uma divisão de robótica industrial), o equipamento foi instalado no ano de 1988. De lá para cá o grupo não parou mais de investir em automação e robótica, vistos como diferencial competitivo – o que é uma diretriz pessoal do empresário Clovis Tramontina repassada a todas as unidades e profissionais. Hoje, já são 680 robôs espalhados pelo grupo, numa média de 80 a 90 novas aquisições a cada ano. Ou seja, a proporção média é de um robô para cada 10 funcionários (são aproximadamente 8 mil trabalhadores no grupo). A cutelaria é a que detém o maior volume, com mais de 300 robôs. As aplicações estão concentradas na área fabril em operações diversas, como manipulação e transferência de peças, fechamento e abertura de packets, solda, paletização, dobra, lixamento e polimento. O grupo tem uma particularidade: todo o processo de automação é verticalizado internamente, ou seja, a Tramontina adquire robôs standarts e conta com equipes internas para desenvolver a programação, software e integração com os outros equipamentos e processos. O try out também é feito internamente. “Vemos uma possibilidade, fazemos uma criteriosa análise e avaliação do pay-back, que é calculado para uma média de dois anos e meio. Mas já tivemos casos de robôs que tiveram retorno do investimento em três meses e outros que demoram cerca de quatro anos. Esse retorno não é avaliado apenas monetariamente, mas também sob o ponto de vista de questões que a Tramontina valoriza, como ergonomia e esforços repetitivos para evitar lesões como LER”, pontua Daniel Tondo, supervisor de automação e processos da Tramontina TEEC, de Carlos Barbosa, responsável pela produção de pias, cubas, fogões e lixeiras. Ele salienta que o valor dos robôs caiu bastante ao longo dos anos ao mesmo tempo que sua aplicação se tornou mais simples, acentuando a curva de utilização, especialmente na última década. Aliado a isso há vantagens na redução de custos e aumento da produtividade e qualidade, uma vez que o robô garante padronização e precisão. “Tivemos um caso recente na Tramontina TEEC, onde o ganho com o uso de um robô trouxe um aumento na produtividade na ordem de 35% a 40%, mas isso não é regra. Existem situações onde a robótica tem o foco de facilitar a execução de determinado trabalho por questões ergonômicas”, complementa Riccardo Bianchi, diretor industrial da unidade.

 

Hugo Pietro
A Hugo Pietro, indústria de sucos de Galópolis, em Caxias do Sul, é um exemplo que comprova a aplicabilidade da robótica em companhias de menor porte. A empresa surgiu em 2005 voltada à terceirização para outras marcas. Em 2013, os gestores tomaram uma decisão: focar na marca Hugo Pietro. Porém, ao perceberem um mercado bastante competitivo, em função de custos, atendimento e briga por preço, decidiram preparar a planta fabril para atuar com mais competitividade. Vieram, então, investimentos em equipamentos até que, no final de 2017, foi tomada a decisão de investir em automação, tendo como foco a produtividade. “Optamos pela automação e robotização nos pontos mais difíceis e críticos do processo fabril, que exigem esforço físico e repetibilidade”, explica o sócio Fernando Basso. O primeiro robô foi instalado em setembro de 2018, na paletização das caixas. A tarefa executada por dois profissionais, numa média de 600 a 700 caixas/hora, duplicou para 1,2 mil caixas/hora com o equipamento. O segundo robô Kuka chega no início do segundo semestre deste ano para operar no encaixotamento das garrafas, também com a previsão de 1,2 mil unidades/hora, substituindo três funcionários. “Existem outros tipos de equipamentos que fazem o mesmo processo, porém optamos pelo robô pela sua flexibilidade. Com uma simples troca da garra e da programação, conseguimos ajustar e mudar o processo. Já se fosse uma máquina teria que trocar o kit ou a máquina inteira. Elas não são multifuncionais como o robô, que tem custo mais alto, mas se paga em três anos. Sem falar na questão do esforço físico, que é bem importante”, destaca Basso. Segundo o empresário, um profissional permanece na operação do robô e os demais estão sendo realocados em outras funções. A empresa que emprega 54 profissionais já estuda a robotização também do processo de colocação das garrafas na esteira, chamada de cabeça do envase. Embora mais leve, trata-se igualmente de tarefa repetitiva. Será a última fase da mudança da linha para resolver gargalos da produção. A previsão é concluir o projeto, executado pela Auttom, de Caxias do Sul, até o final de 2019, duplicando a capacidade instalada da indústria. “No início parecia algo complexo, um bicho de sete cabeças, mas estudamos, nos aprofundamos e nos surpreendemos com as facilidades da robótica. Estamos bem satisfeitos com os resultados já alcançados com o primeiro robô. Claro que queremos ver o projeto concluído, isso vai colocar a Hugo Pietro em outro patamar. Vejo que a cadeia, não só do nosso setor, está cada vez mais apertada e as empresas terão que ser competitivas para se manterem vivas no mercado”, analisa o empresário.

 

Bionicook
A automação está presente no nosso cotidiano mais do que imaginamos ou percebemos. Já pensou em um robô que prepara comida, como pastéis e empanados gourmet, com uso da tecnologia e sem qualquer intervenção humana? Pois essa solução já existe e foi lançada no Mind7 Startup, realizado em maio, nos Pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul. Idealizado pelo empresário caxiense Fábio Rezler, o Bionicook é o primeiro fast-food do Brasil totalmente automatizado, no qual o atendimento e preparação são feitos 100% por um robô. A startup oferece lanches e bebidas de forma automatizada durante 24 horas do dia, nos sete dias da semana, sem qualquer necessidade de atendimento por uma pessoa. Tudo é feito pelo robô, que tem capacidade para atender cerca de 100 pedidos por hora, levando em média três minutos para o preparo de cada pedido. São no total 14 opções de lanches fritos, seis de sobremesas e 27 de bebidas, sendo seis quentes. A solução foi desenvolvida pela caxiense Auttom com uma célula de robô Kuka e está sendo comercializada em modelo de franquia, sendo ideal para instalação em espaços comerciais e de lazer, como shopping centers. Como o Bionicook funciona na prática? De maneira simples e rápida, o consumidor faz o pedido por meio de um totem de autoatendimento e o robô executa a solicitação. “É um fast-food de pastéis e empanados, com porções já pré-estabelecidas que vêm congeladas e embaladas de fábrica. O robô inicia o processo de fritura e atendimento após o pedido e pagamento realizados pelo cliente. Como o processo de fritura leva entre dois e três minutos, um dos mais rápidos do mundo, colocamos o equipamento para interagir com as pessoas por meio de mídia eletrônica em tablet manipulado pelo robô, além de merchandising e comunicados”, explica Rezler, que se dedicou durante três anos ao desenvolvimento do projeto da startup. Segundo ele, a inovação irá gerar mais empregos, já que serão necessárias funções complementares de retaguarda. “Os robôs vêm para agilizar e fazer os trabalhos mais repetitivos. A célula robotizada no fast-food vai gerar outras tarefas, que serão executadas por pessoas, como a fabricação e preparação dos produtos, engenharia, monitoramento remoto, logística e gestão dos franqueados. Além disso, abrirá novas demandas de cargos administrativos e técnicos para a manutenção das células e dos robôs”, exemplifica.