Vinho de Cem Anos

Daniel Salton, diretor da Vinhos Salton SA, diz que o espumante brasileiro veio pra ficar.

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NOI - Para onde caminha o mercado de vinhos brasileiros e que nichos poderão se abrir?

Daniel Salton - Na realidade, o vinho brasileiro evoluiu muito nesta última década, tanto em qualidade quanto em divulgação, obtendo diversas premiações importantes em concursos internacionais, como reflexo dos investimentos que foram realizados tanto na parte agrícola, na condução da parreira, quanto na aquisição de clones de novas variedades de uva. Hoje, de uma mesma variedade vinífera, como o chardonnay, por exemplo, dispomos de clones específicos para a produção de espumantes ou de vinho tranquilo. É a mesma variedade, mas com características genéticas diferentes, para ser usada em processos e produtos diferentes. Demonstra uma grande evolução, que dá credibilidade ao vinho nacional, porque reflete a seriedade com que estamos tratando este produto. E o consumidor está percebendo isso.

NOI-Que nichos de mercado poderão se abrir no setor daqui para a frente?

D.S. - Eu acredito que o vinho branco deverá crescer novamente aqui no Brasil, como aconteceu no final dos anos 80, início dos 90, quando houve um 'boom' de consumo deste produto. Depois disso houve uma queda drástica nas vendas do vinho branco em função do aumento da procura por vinhos tintos, principalmente motivada por pesquisas médicas que ressaltavam os benefícios do resveratrol. Hoje a gente sente, em função do que observa como tendência na Europa, nos EUA e nos países emergentes, o retorno forte do consumo do vinho branco. O tinto deve continuar mantendo seu patamar de excelência mas, aqui no Brasil, deve ir forte mesmo o espumante. Eu acho que o brasileiro descobriu muito recentemente o espumante e ele veio pra ficar. Hoje, o consumo do espumante cresce acima de qualquer outro produto vinícola no Brasil.

NOI-Por que se diz que a região da Serra Gaúcha tem vocação para a produção de vinhos brancos?

D.S. - Muito em função do nosso clima instável, que torna difícil conseguir uma alta graduação do açúcar natural da uva, fundamental para a elaboração de vinhos tintos encorpados. É necessário que tenhamos um verão muito seco para que a uva tinta aqui da Serra se distinga, diferente da Região da Fronteira do RGS, por exemplo. Lá, mesmo que chova, não prejudica a maturação da fruta, porque lá a terra é argilosa e não deixa a água parar. O microclima da fronteira é diferente do daqui. O nosso é fantástico para os vinhos brancos de base para espumante, em função desta acidez presente na uva que não amadurece tanto.

NOI-E na Fronteira, o que está sendo plantado?

D.S. - A zona de Livramento, Bagé e Dom Pedrito é própria para o cultivo de uvas escuras e produção de vinhos tintos maravilhosos, além de vinhos brancos como Sauvignon Blanc, ou o Chardonnay, que resultam em produtos elegantes, muito frutados. Estas uvas vão se destacar bastante naquela região. Diferente da Serra. Eu acredito que aqui, nos próximos anos, a propensão é o plantio de uvas para espumantes.

NOI-Então o senhor acredita que exista esta tendência em demarcar regiões específicas para um determinado produto?

D.S. - Vai acontecer isso, na verdade já está acontecendo! A Salton, por exemplo, dentro do seu projeto de expansão, esta trabalhando muito neste sentido, focando aqui na Serra o cultivo de variedades para espumantes e vinhos brancos tranquilos e, na Fronteira, investindo forte na produção de uvas tintas e brancas mais frutadas.

NOI-Na sua opinião, quais os desafios que vêm pela frente?

D.S. - Nosso maior desafio é incentivar o nosso principal fornecedor -o agricultor- a plantar determinadas variedades, sejam brancas ou tintas, porque se o consumo nos próximos 10 anos aumentar de acordo com as projeções, vamos ter uma verdadeira guerra por matéria-prima. Precisamos priorisar e incentivar a produção da uva de qualidade, aumentando a participação na fronteira que, em função da morfologia, permite o cultivo em áreas mais amplas. Na Serra hoje é praticamente inviável economicamente investir na aquisição de terras para a agricultura. Ao contrário da região da fronteira que, com suas vastas extenções de terra, permite o cultivo mais intensivo. Depois existe todo um programa buscando o produtor rural que esteja propenso a plantar uva naquela região, focando na produção de qualidade como hoje a Salton prioriza.

NOI-Qual é a fórmula para uma empresa completar 100 anos, como é o caso da Salton, e ainda se manter com uma estrutura familiar?

D.S. - Bom, fórmula não existe. O que posso dizer é que as três famílias que assumiram em conjunto nos últimos vinte anos se uniram no mesmo objetivo. Acho que o grande segredo é esse: nao termos ranço entre nós, somente diálogo, e assim conseguimos fazer com que a empresa, que então passava por dificuldades, crescesse e se firmasse no mercado. O segundo segredo é ter investido em qualidade, mudando o perfil de trabalho: antes nós focávamos a alta produtividade visando um mercado médio-baixo. Hoje o foco principal está sim na boa produtividade, mas com qualidade e destinada ao mercado médio-alto.

NOI-O que o senhor destacaria nesses 100 anos?

D.S. - Houveram algumas situações que foram muito importantes para a formação da Salton como é hoje. Na década de 40, nossos pais e tios visualizaram que deveríamos ir para Sao Paulo, estar presentes em um grande centro para facilitar a comercialização. Este foi um dos grandes fatores que contribuiram para que a Salton hoje estivesse bem situada na parte de logística. Outro fator importante foi ter apostado, na década de 70, no Conhaque Presidente, deixando um pouco de lado os vinhos porque, naquela época, o conhaque saía muito, o que deu sustentabilidade financeira para o crescimento da empresa. E, é claro, o grande passo dado no final dos anos 90, início do ano 2000, com a mudança de pensamento e a construção da nova vinícola. Este, no meu ver, foi o grande salto: ter entrado num mercado diferenciado, com um grande vinho e com uma grande vinícola de fato.

NOI-O que podemos esperar da Salton em termos de novidades, investimentos e novos produtos?

D.S. - A Santon está sempre olhando para o futuro. Hoje estamos finalizando a compra de uma segunda linha de montagem, que deverá estar completamente montada no início do próximo ano. Este é um dos grandes investimentos que estamos fazendo neste momento, que nos propiciará um acréscimo de mais de 80% na produção diária da empresa e, consequentemente, poderemos ser mais competitivos, mais agressivos na parte de venda, ampliando o mercado da Salton no Brasil. Outro grande projeto á a construção de duas caves subterrâneas para ampliar a produção do espumante pelo método champenoise. Hoje 90% do espumante que elaboramos é pelo metodo charmat mas, no futuro, nosso projeto é aumentar o volume de champenoise, com a criação de novos produtos. Além disso, essas cavas também servirão para o envelhecimento dos vinhos de guarda, como o Talento e o Desejo, e uma parte dos vinhos Volpe, que devem ficar nas cavas de seis meses a um ano. Por fim, pretendemos iniciar o quanto antes o projeto de construção da área administrativa e da nova loja de vinhos, num espaço bem mais dinâmico e integrado com o conceito de modernidade da empresa.

NOI-A Salton visa novos públicos, como o feminino ou de jovens?

D.S. - Hoje já temos alguns produtos voltados ao público feminino. O Lunae, por exemplo, é um frizante que introduzimos há dois anos, relançando este tipo de produto no Brasil que tinha um público muito pequenos. Investimos no visual, em um novo conceito de produto, e a mulher tem sido fundamental no sucesso deste vinho. Hoje a grande maioria das vinícolas está indo atrás deste tipo de produto, mais leve e delicado. O proprio Salton Flowers, lançado anos atrás, foi remodelado, com um apelo diferenciado, mais juvenil e também voltado para o público feminino. Não que o mercado masculino não nos interesse, mas a mulher tem um papel fundamental no consumo de vinhos, porque ela tem este conceito de modernidade, de status, de requinte, do prazer de estar junto, que é o conceito do vinho.

NOI-Quais são os planos da Salton para atingir o mercado internacional?

D.S. - Nós estamos trabalhando de acordo com nossa capacidade. Hoje, praticamente toda produção da empresa é destinada ao mercado interno, com menos de 0,5% voltado à exportação. Mas estamos com um plano de trabalho para sermos mais agressivos lá fora já em 2011. Para isso a empresa está intensivando as participações em concursos e eventos no exterior, focando a abertura de novos mercados. A meta é de que nos próximos anos a exportação represente ao menos 3 ou 4% do faturamento global da empresa.

NOI-Quais os mercados que estão sendo visados?

D.S. - O foco principal é o norte europeu, mas queremos também retomar os trabalhos nos Estados Unidos e quem sabe abrir mercado em algum país asiatico, como o Japão, por exemplo.

NOI-Como bom apreciador de vinhos, qual o seu preferido? E em que momentos?

D.S. - O meu vinho preferido da Salton é o Desejo. Gosto muito da uva Merlot e o Desejo tem a característica de ser 100% Merlot, sendo hoje um dos principais vinhos da empresa. Depois eu gosto muito do Talento, um Assemblage que já recebeu diversas premiações. Para mim, a hora ideal pra beber um bom vinho é durante o jantar, de preferência no final de semana, quando dá pra curtir melhor o momento, sem pressa, degustando a bebida, a comida e a companhia.

NOI-O que o senhor pensa sobre o mercado de turismo na Serra Gaúcha?

D.S. - É notavel como o fluxo turístico aqui da regiao cresceu nos últimos anos. Em 2004, quando nos transferimos para nossa nova sede, no Vale das Antas, o volume de visitas/ano era de menos de dez mil pessoas. Hoje registramos mais de 60 mil visitas, o que demonstra a força do vinho como produto turístico. Temos mais é que continuar investindo no turismo enogastronômico, que é sucesso no mundo inteiro.

NOI-Falando do Vale das Antas, qual a sua visão de futuro sobre esta rota?

D.S. - Sou suspeito pra falar, mas considero esta rota uma das mais bonitas da região, nâo desmerecendo o Vale dos Vinhedos, que já é uma marca reconhecida, mas a paisagem do Vale do Rio das Antas é fenomenal. Ainda tem muito pra investir, não são muitas as vinícolas que aqui estão, mas existem outros atrativos bem interessantes e, trabalhando bem, esta rota tem um apelo muito forte. Acredito que através da união de empresas e da associação do distrito, o turismo aqui tem tudo pra evoluir. Na realidade, a Salton tem feito muito, através de contatos com agências de turismo, de participação em feiras de todo país, divulgando sim o nosso produto, mas frisando bem a Rota Vale das Antas.

NOI- O senhor tem um sonho, uma missão, algo que pretende alcançar e compartilhar?

D.S. - Bom, meu sonho neste momento é que a empresa faça mais cem anos. E esse sonho tem tudo pra se realizar, principalmente com a entrada da quarta geração, que tem demonstrado muita competência. Se, no futuro, a família continuar trabalhando com tranquilidade e diálogo, não tem porque não prosperar..

Juarez Piva

Fimma Brasil 2011


Luiz Carlos Comiotto

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