NOI - Os primórdios da cirurgia plástica datam do século II a.C. nos povos Indus com a prática da confecção de retalhos de pele em lugar de suturas tensionadas focando reparar ferimentos decorrentes de guerras e punições. Hoje, o foco desta especialidade mudou? É só a estética?
Tiago Valenti - Não, a Cirurgia Plástica mantém, nos dias de hoje, este ramo restaurador. A confecção de retalhos, enxertos de pele, tratamento de grandes queimados é uma incumbência do Cirurgião Plástico. Mas a mídia tem um papel muito importante neste contexto devido ao apelo estético, à valorização das formas corporais.
NOI - O desejo de se amoldar aos padrões de beleza idealizada pela sociedade, ou pela própria pessoa, pode levar a uma busca desenfreada da "perfeição"? Como isso se manifesta no consultório? Como saber se o pedido do paciente é realmente necessário? Como convencer um paciente de que o que ele está solicitando pode não ser o melhor para ele?
T. V. - Hoje em dia, todos buscam a perfeição. No meu entender, não existe pessoa perfeita e sim um processo de aceitação do seu biótipo. Como profissional, devo examinar o paciente e dar o meu parecer em relação à sua queixa, à procedência desta queixa e a quais melhorias posso propor a ele. Evidentemente, cada paciente é um caso; quando o pedido é exagerado, tento dentro da consulta mostrar o exagero pretendido e fazer a paciente retornar à sua realidade.
NOI - O que não se "conserta" com a cirurgia plástica?
T. V. - Muitas pessoas buscam retomar sua auto-estima através da cirurgia plástica exigindo do profissional médico verdadeiros milagres. Por isso, sempre enfatizo o confronto da imagem corporal verdadeira, real, com o esperado pelo paciente. Como tudo em medicina, médico e paciente possuem uma parcela de contribuição para um resultado satisfatório a ambos. Faço a minha parte, realizo minhas cirurgias com o máximo de dedicação, técnica e empenho e oriento aos pacientes que sigam minhas orientações. É importante que cada paciente tenha consciência de que a cirurgia plástica não é garantia de que devido a uma aparência melhor ele alcançará uma promoção no trabalho ou um novo emprego, enfim... Mas, com certeza, a melhora da auto-estima contribui para isso. Porém estas questões não são "consertadas" pelo ato cirúrgico isoladamente.
NOI - O que o Senhor expõe ao paciente quando procurado para realização de um procedimento?
T. V. O primeiro contato é o mais importante. As expectativas serão divididas e digeridas em 60 minutos. Inicialmente, examino o paciente confrontando sua expectativa com o mundo real. Explico o tipo de procedimento que seria mais indicado naquela circunstância para aquele resultado, o tipo de anestesia a ser utilizada, a necessidade ou não de internação hospitalar. Sugiro que o paciente converse com seus familiares sobre a cirurgia, o pós- operatório e as modificações que ocorrerão para que eles tenham ciência e apóiem sua decisão. Evidentemente, a rotina pré-operatória do cirurgião é explicitada, orientando a cessação do tabagismo, de alguns medicamentos, alimentação balanceada, realização de exames laboratoriais e de imagem. As fotos são importantes para que o paciente indique o que considera um "defeito" e para orientar o cirurgião, contribuindo para que, juntos, discutam os reparos a serem realizados, discutam novamente sobre as expectativas e, no pós-cirúrgico, comparem os resultados apresentados. No meu consultório, analiso as imagens de pacientes no pré-operatório, aos 15, 30, 60 e 90 dias após a cirurgia. Na consulta cada paciente também recebe uma pasta de especificações onde consta o contrato médico, o termo de consentimento cirúrgico, as orientações pré e pós-operatórias, o orçamento médico e um esclarecimento sobre algo muito importante na cirurgia em geral, as cicatrizes. Sempre entrego um artigo explicando sobre cicatrizes hipertróficas, quelóideanas, cuidados com cicatrizes, para que o paciente tenha ciência de que, por se tratar de uma cirurgia, sempre haverá cicatrizes, por menores que sejam.
NOI - Pois bem, chegamos ao pós-operatório... O que o Senhor considera primordial nesta fase do tratamento e quais as complicações a curto, médio e longo prazo que devem ser observadas? Como o senhor acompanha suas pacientes nesta fase?
T. V. - A drenagem linfática, o cumprimento das orientações e a dieta são itens fundamentais para a boa evolução do pós-operatório. Todas as orientações médicas devem ser seguidas à risca. Na consulta pré- operatória cada paciente recebe todas as orientações para o pós-operatório imediato. Estas são sempre reforçadas no momento da alta hospitalar. A minha rotina no pós-operatório é o acompanhamento telefônico diário até o sétimo dia após a cirurgia. Então, diariamente, questiono o paciente quanto a possíveis sintomas relacionados a complicações, informo as atividades que já pode exercer a partir daquele momento, as medicações que deve tomar, o tipo de dieta que deve seguir e os cuidados com os curativos. A médio e longo prazo procuro ter um seguimento do tratamento, principalmente para pacientes submetidos a lipoaspiração e abdominoplastia, a fim de manterem seu peso.
NOI - Em um meio tão competitivo, o que o senhor considera ser o seu diferencial?
T. V. - O Relacionamento médico- paciente é o meu diferencial.
Dr. Tiago Valenti é Cirurgião Plástico, filho de Aldo Francisco e Inelve Peruffo Valenti, casado com Mirian Pecis Valenti com quem tem duas filhas, Luiza e Karina. Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica desde 1993, já realizou mais de cinco mil cirurgias nos hospitais Mãe de Deus, São Lucas da PUCRS e Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Mantém consultórios em Bento Gonçalves, sua cidade natal, na Rua General Cândido Costa, 65/1204, Ed. Palazzo Del Lavoro, telefones (54) 3454 1043 e 30554745 e em Porto Alegre na Avenida Taquara, 386, 4º andar, fone (51) 33883140.