Mariete de Carli e Cláudia Carraro
Diretoras da Eco-Preservação Ambiental, comentam o que viram na IFAT 2010
Marinete de Carli - Tudo poderia ser aplicado em nossa região, principalmente, na área urbana, já que as indústrias estão fazendo muito bem o seu tema de casa com relação ao meio ambiente, com tratamento de gases, de resíduos sólidos e de todas as águas servidas desde o processo industrial até o refeitório, sanitário e lavagem de veículos.
Cláudia Carraro - Na área urbana, temos carência de projetos de orientação quanto à coleta seletiva e principalmente precisamos tratar com urgência o esgoto doméstico que é tão poluente quanto o industrial mas por ele pouco ou nada tem sido feito.
M.C- Veja só. Na Alemanhã, também estivemos visitando a Oktoberfest. Os alemães se queixam muito deste evento por causa dos animais, especialmente cavalos, que acabam defecando, e até por causa das próprias pessoas que bebem muito e acabam urinando ao léu. Eles se queixam muito com isso mas, sinceramente,nos dias em que estive na Oktoberfest não vi sujeira; tinha um que outro estrume de cavalos e só. Na Alemanha, tu não vês lixeiras próximas na rua. Então se a pessoa masca um chiclete e quer descartar, o costume é ela colocar no bolso porque tu não vê um papelzinho no chão. Ai essa pessoa vai andando, andando, andando até encontrar uma bateria de lixeiras, todas separadas seletivamente por tipo de resíduo. É incrível que não se veja um lixo no chão.
C.C - Papel, toco de cigarro, isso tudo não se enxerga na rua...
M.C- Só flores, muitas flores, uma educação, um respeito pelo ambiente. Dentro das lojas também, se a balconista te vê com um papel na mão, ela vem, pega o papel para direcionar no lugar certo. Nos banheiros, só papel higiênico biodegradável. Então não existem lixeiras para o papel higiênico nos banheiros; ele é descartado no vaso por ser biodegradável. Dentro do hotel, no apartamento, é a mesma coisa. Cabelos que cáem no pentear, absorventes, para tudo tem saquinhos específicos. Há uma única lixeira no quarto do hotel para três pessoas, mas é tudo muito limpo. A Alemanha é fantástica neste aspecto! Mas, depois, seguimos para Milão, na Itália, e não tivemos uma boa experiência. Nós visitamos a feira de moda, tinha gente do mundo todo, e lá vimos muitos mendigos, muita sujeira... Nunca pensei que Milão fosse ter tanta sujeira e tantos pedintes na rua. Depois fomos a París, perfeito! Tudo limpo de novo. París não é tão limpa quanto a Alemanha, mas não me lembro de ter encontrado lixo. Estou indicando a Alemanha para todo mundo, porque o pessoal pensa assim "não vou porque o povo alemão é meio cisudo..." Não são, aliás, são muito educados, atendem todo mundo com respeito. E todo o esgoto sanitário lá é tratado, por isso que eles pedem para não jogar absorventes, fraldas, no ralo pois, embora o sistema deles seja projetado para receber tudo, isso tranca quando chega nas estações de tratamento. Então eles dão toda uma orientação, mas, sinceramente, eu duvido que, com aquela educação, alguém jogue um absorvente dentro do vaso, ou na lixeira que está ali; como disse, eles têm saquinhos específicos para isso. Aqui em Bento, há alguns anos implantamos a coleta seletiva no Hotel Dall'Onder. As pessoas compram água mineral, biscoitos, etc, e colocam os resíduos nas lixeiras dentro do quarto. De manhã quando os hóspedes vão embora, as lixeiras estão lotadas. O hotel faz a coleta seletiva nos quartos, na cozinha, na confeitaria, no restaurante, em todos os ambientes.
|NOI| Uma análise sobre as principais carências ambientais em nossa região?
C.C - Carências ambientais: falta a implantação de um sistema integrado de tratamento de esgotos sanitários já que cada habitante gera em torno de 150 litros de água servida por dia. Multiplicando por 100.000 habitantes em Bento Gonçalves, teremos 1.500.000 litros de esgoto por dia que estão sendo lançados sem nenhum tipo de tratamento. Quanto aos resíduos sólidos, mais de 60% é reciclável e hoje o município de Bento Gonçalves recicla no máximo 25%. Por outro lado, tenho o maior orgulho de pertencer e trabalhar na região da Serra Gaúcha onde a classe empresarial realmente se preocupa muito com o meio ambiente e com a sustentabilidade como um todo. As pessoas pensam que são as indústrias quem mais polui nosso ambiente e estão completamente enganadas. Nossas empresas estão investindo e muito nesta área; o que está a descoberto é o resíduo doméstico que hoje é o maior responsável pela poluição de rios e arroios e do ambiente como um todo.
|NOI| Do que vocês viram na Alemanhã, oque poderia ser aproveitado e aplicado na nossa região, mais específicamente quanto ao tratamento do esgoto sanitário? Existem alternativas viáveis economicamente, mais práticas?
M.C- A topografia de Bento Gonçalves é extremamente acidentada e isso encarece bastante a implantação de um sistema assim. Para fazer toda essa rede hidráulica, a parte da tubulação é o maior problema, porque hoje junta tudo -chuva, água de cozinha, água sanitária- está tudo no mesmo esgoto. Qual a maior dificuldade aqui em Bento?! Vou te falar do fundo do coração, o poder público até tem vontade de fazer, mas é uma tarefa bem difícil, precisa começar arrebentando todas essas ruas e separando toda a parte de encanamento de esgotos para poder iniciar a solução do problema...
|NOI| Mas, o professor Lutzemberg chegou até comentar um dia que, "a solução para Bento seria mais fácil justamente por conta das declividades"?
M.C- Veja, com a nossa topografia, é preciso montar muitas estações de tratamento. E separar o esgoto. Hoje nós tratamos o esgoto de quase todas as indústrias, onde são feitas estações de tratamento. As empresas tratam o esgoto, mas são projetos arrojados e caros. Não são projetos baratos, então quem vai manter isso no meio público? Quem vai operar?
|NOI| Então, para Bento Gonçalves qual seria a solução?
M.C- Estações em pontos diferenciados, porém tu imagine se, para operar uma estação já é trabalhoso,tem que ter um operador 24 horas, para operar dez, doze, quinze estações em pontos diferentes é muito complexo. Tem solução, tenho certeza, mas vai muito dinheiro?! Vai. O que deveria ser feito, em minha opinião, é começar primeiro em um bairro, depois em outro. Vai ter que arrebentar todas as ruas?! Vai. E, paralelamente, fazer todos os loteamentos novos todos com planejamento de estações de tratamento, mas isso me parece que está sendo feito.
|NOI| E para despoluir os rios?
M.C- Em Bento Gonçalves, estações de tratamento de esgoto; não temos nenhuma. Imaginae que cada pessoa gera em torno de 150 a 200 litros de água por dia e são 100 mil habitantes... São 2 milhões de litros de esgoto gerados por dia, que vão para o Borgo (Burati), ou pro Barracão, ou pro Pedrinho, pontos que, para mim, poderiam receber as estações de tratamento. Em Caxias do Sul estão fazendo uma estação de tratamento muito boa, um investimento enorme, uma loucura, mas é exatamente o que eu proporia aqui pro município e o que nós vimos fora do país. Só que Caxias tem uma topografia menos acidentada, então fica mais fácil a condução e também lá já tem redes de esgoto separados. Em Bento tenho percebido muita vontade de fazer, desde o prefeito anterior. Pessoalmente fui a muitas reuniões na CORSAN na época da FIEMA, sobre este assunto, mas até agora ficou tudo apenas no projeto. Outra coisa importante que as pessoas não se dão conta: falta planejamento, por exemplo, com relação aos cemitérios. Nós fizemos oito realocações de cemitérios que seriam alagados pelas barragens no Rio das Antas, tudo com licenciamento ambiental, com tratamento de gases, com tratamento de chorume, tudo certinho. Mas Bento Gonçalves tem cemitérios nos topos dos morros... a gente precisa ter um pouco de senso crítico. Quando a pessoa morre, mais de 70% de seu corpo é água e essa água escorre em poucos dias. Se não tiver sido feito todo o celamento como o que a gente fez naqueles cemitérios junto ao Rio das Antas, aquilo fica dentro do tijolo, vai cheirando podre, e vai escorrendo, não existe tumba que seja 100% vedada. O Cemitério Parque do Bairro Santo Antão foi todo feito dentro da norma, mas o restante é um problema. Outro grande problema a resolver é das águas de cozinha, especialmente de restaurantes que servem duzentas, trezentas refeições por dia; cadê as estações de tratamento?! Numa indústria com 100 funcionários, processando 5 mil litros de água por dia, se faz estação de tratamento como manda o figurino. Alguns poucos restaurantes nos chamaram para colocar caixas de gordura eficientes, mas que fique bem claro: só a caixa de gordura não resolve o problema. O que acontece nas estações de tratamento da Alemanha, por exemplo? O esgoto vai todo para um ponto e cada pessoa paga pelo que gera. Existe um hidrômetro na entrada de cada casa, como aqui, mas tem também um marcador na saída do esgoto e cada um vai pagar por aquilo que gerou e que vai para a estação fazer o tratamento...
|NOI| Uma taxa de esgoto. Aqui não tem taxa de esgoto?
M.C-Aqui não tem, Canoas tem. Caxias vai ter também. Tudo que é largado vai para um local e é cobrado para ser tratado; tem a taxa de água que vem todo o mês e a taxinha que vem do tratamento do esgoto também.
C.C - Em Caxias, não sei se já não estão aplicando essa taxa...
NOI - Mas quanto custa uma estação de tratamento?
M.C- Para montar uma estação em uma empresa de quinhentos funcionários, vai custar mais ou menos quinhentos mil reais; não é barato.
|NOI| Então daria para se dizer, estimativamente, que é o custo de uma estação seja aproximadamente de mil reais por habitante?
M.C- Não, porque, para 100 mil habitantes, seriam cem milhões de reais, mas não foge muito disso, não..
|NOI| Mas em compensação esse um mil reais seria pago pela taxa em praticamente em dois ou três anos, digamos assim, então não seria tão inviável, economicamente?
M.C- Pois é. Hoje, se tu tens vontade, com a engenharia e tecnologia existente, puxas redes de dois, três quilômetros dentro de uma fábrica para tratar cem funcionários. O órgão ambiental fiscaliza, a empresa é obrigada a tratar seus efluentes, mas aí eu te pergunto: e aquele esgoto doméstico todo que vai direto para dentro do rio, milhões de litros de água por dia? Fui dar uma palestra na semana passada aí uma senhora disse: 'Mas eu pensava que quem poluísse mais os rios fosse a indústria..!". Gordura do banho, do shampoo, do sabão, dos produtos de limpeza... tudo isso faz um estrago imenso nos rios, é de assustar.
|NOI| Tem mais alternativas e pontos de estrangulamento na região que poderiam ser melhor trabalhados? Com relação à educação na rua, por exemplo, uma campanha permanente de conscientização...
M.C- Essa campanha seria muito simples de fazer. Além de dentro das escolas, como a gente já tem feito, fazer também um trabalho nas comunidades. São as crianças que levam mudanças de comportamento pra dentro de casa.
C.C - A própria coleta do resíduo, eu vejo isso até no meu prédio, às vezes a pessoa deixa o lixo todo separadinho mas o pessoal da coleta acaba coletando papelão, plástico que está separado e colocando tudo junto dentro do caminhão do lixo. Está acontecendo muito isso também.
M.C- É preciso todo um trabalho com as pessoas que estão coletando também..
|NOI| E com as pessoas que colocam para fora de casa seu lixo no horário errado...
M.C- É , e há pessoas que não têm a orientação correta das lixeiras, aí coloca em lugares errados e a coleta seletiva não recolhe.
C.C - Outro ponto importante é com relação aos poços de água, artesianos, onde o pessoal costuma ir buscar água...
M.C- Imagine poços artesianos como o que temos próximo ao Posto do Hélio. Ele fica na base de um barranco, lá em cima há um bairro inteiro. Essas casas têm pelo menos uma fossa? Que fossa têm? E está quebrada? Tem manutenção? Tudo está indo para aquela água, do poço, onde tantos vão buscar...
|NOI| A abertura de poços não está proibida, por conta do comprometimento aos lençóis freáticos?
M.C- Existe uma outorga, eles têm que ter manutenção, mas ainda são permitidos...
|NOI| Pois é, naquele poço artesiano, às vezes se vê filas de gente pegando água. Tem um restaurante ali perto, onde íamos almoçar com frequência aos domingos, e os proprietários nos falaram que só usavam aquela água. Inclusive, que o pessoal da saúde tinha colhido uma amostra para fazer analise e ela estava melhor que a água da CORSAN, então eu fui até lá e reparei, realmente, que a água estava turva... Mas quanto ao tratamento de efluentes para restaurantes, existem alternativas mais viáveis economicamente?
M.C- Existem. Precisa ser feita uma separação com peneira, uma flotação, tirar a gordura e depois um tratamento que poderia ser até um filtro, mas não é muito barato não; exige investimento e espaço.
C.C - Hoje há restaurantes instalados em pequenos espaços que não tem como fazer isso até por falta de espaço...
M.C- Acho que dá para se projetar como fazemos em refeitórios de fábricas. Digamos, por exemplo, uma grande fábrica de móveis de Bento Gonçalves. Imagine descascar batatas para servir a quinhentas pessoas no seu refeitório. A batata tem amido. Já reparou quando a batata apodrece como fica? Se este amido for para a estação de tratamento da empresa, se trata tudo. Mas se ele for para fora, como no caso dos restaurantes, vai tudo para o esgoto e direto para os rios. Ai, então, tu vais lavar alface, tomates, gastas um horror de água. Pra tudo isso existe uma solução nas cozinhas projetadas que os restaurantes provavelmente não têm mas os refeitórios das fábricas têm.. A máquina de descascar batatas hoje tem um sistema que recolhe todo aquele amido, que depois vai para produção de rações animais ou então vai direto para o aterro, para a compostagem. As indústrias fazem isso, têm esse cuidado. E nós, fazemos o quê?! Por exemplo, quando se faz carne ao molho com batata e se lava a panela, mesmo que se tire tudo e jogue no lixo, quanta gordura ainda vai pelo ralo? E isso tudo vai para dentro dos esgotos. Aí tu imaginas num restaurante...
|NOI| Vocês têm uma idéia de valor de investimento para um restaurante fazer a coisa certa?
M.C- Estamos fazendo um estudo, agora, para uma indústria que serve novecentas refeições por dia em seu refeitório. Vai ter um custo em torno de cento e cinquenta mil reais, é bem mais barato. E já trata o esgoto. Se tivéssemos a estação integrada na cidade, aí sim ficava bem melhor, era só a prefeitura tratar e cobrar, mas tratar como um todo, separar as redes , não permitir mais que novas construções saiam sem uma solução adequada na área ambiental. Hoje, em Bento Gonçalves, tudo tem que ser autorizado pelo IPURB e pelo que eu estou vendo ele não concede mais o habite-se para casas que não tiverem fossa e filtro. De agora em diante penso que as coisas serão melhor solucionadas, loteamentos novo só serão liberados com projetos de tratamento de esgotos tanto industrial quanto residencial. Mas veja, nesta área ambiental, não existe mágica de alguém que venha te vender algo muito barato no tratamento de efluentes. Quer fazer funcionar, quer tratar, vai gastar. Nós estamos fazendo um trabalho para uma empresa de Caxias do Sul com uma jornalista. Lá nós montamos uma fábrica ambientalmente correta, ecologicamente sustentável, semelhante ao que fez a COCCENAL, que é uma cooperativa toda montada pensando na ISO 14000, ISO 18000. Aí, nesta empresa de Caxias, foram adotadas uma série de medidas sustentáveis como a iluminação direta em toda a fábrica, o que gera uma enorme redução no consumo de energia. As descargas nos banheiros são hidras divididas ao meio, ou seja, de um lado têm três litros de água e do outro seis litros. A nossas caixas normais de casa possuem vinte litros. A norma é que se projete 70 litros de consumo por dia por pessoa. Mas temos empresas aqui que não gastam 20 litros/dia por pessoa,pois as caixas de seus banheiros têm 6 litros. São empresas que adotam uma série de outras atitudes ecologicamente corretas. Nós fazemos o projeto para 70 litros por dia, porque é norma, então, em casos como estes, vai sobrar e o sistema se torna mais eficiente, porque ao invés de gerar 70 geram-se 20 litros por dia. E tudo é separado, tudo é aproveitado, se faz a condução pensando em tudo. Por exemplo, mudar todo um processo, trocar toda a linha de produção, para poder gerar um plástico reciclável.
C.C - Até contatar com o próprio fornecedor de matéria prima para que aquela matéria prima não venha envolvida em um plástico contaminado, que venha em um plástico limpo para que não sobre esse tipo de resíduo na indústria. Esse tipo de trabalho também esta sendo feito. Até a troca de fornecedor para que não gere tanto resíduo.
M.C- Fazemos também palestras e falamos tudo isso. Numa ocasião, uma mulher me disse: "Marinete, eu vou hoje comprar duas lixeiras e vou separar todo o lixo na minha casa". Aí falei das árvores, quantas árvores seriam economizadas com esta atitude. Se cada pessoa gerar um quilo de lixo por dia; sendo 100 mil habitantes, serão 100 mil quilos de lixo por dia. Se 20 quilos de lixo são de papel reciclável por habitante/ dia e a cada 50 quilos de papel uma árvore é economizada, já pensou em 20 mil quilos de papel quantas árvores são economizadas?! Das 20 toneladas que recebem por dia quantas são aproveitadas nas associações de recicladores?!
|NOI| As associações não funcionam como deveriam porque recebem pouco material...
C.C - E o material que recebem chega todo misturado. Até separar tudo... |NOI| Então, diríamos assim que, em uma escala de um a dez, estamos em menos um?!?..
M.C- Eu te diria que, na indústria, estamos com 9,5. O município eu diria que estamos em Um, talvez Dois, comparando como era há quinze anos e agora que já conseguimos fazer um pouco de coleta seletiva pelo menos. Os postos de combustíveis hoje estão tratando seus efluentes, separando, e até alguns lavadores de carros também; embaixo do carro tem óleo, cada litro de óleo contamina um milhão de litros de água, imagine que cada um lave 20 carros por dia. No bairro Santo Antão tem uma lavagem que está de parabéns, lá separam todo o óleo, não desperdiçam água... Então já temos algumas coisas feitas em termos de avanços nesta área na cidade, como a obrigatoriedade para os novos loteamentos, para as novas casas, e o esforço do pessoal do Ipurb é bem grande também.
|NOI| Uma mensagem para a comunidade regional, um sonho, alguma coisa que queiram compartilhar?
M.C- A nossa meta é poder ter o orgulho que temos da indústria na área urbana do município com relação à questão ambiental. É poder dizer, quando a gente viaja, que se mora no município mais bem cuidado do mundo, porque hoje já se tem essa visão da nossa indústria fora do país. Em nossa última viagem, fomos almoçar em um restaurante na Itália, em Milão, e até estávamos falando em italiano. Mas aí veio o garçom e nos perguntou: "Paulistas?" Não... "Mineiras?" Não... "Bento-gonçalvenses!!!" (risos), nós olhamos com espanto e perguntamos: "como o senhor sabe?" Ele nos disse que recebia muitos clientes de Bento Gonçalves lá. Veja só. Há uns oito a dez anos atrás, uma empresa nos solicitou um estudo para falar sobre o prejuízo dos plásticos, por exemplo, nos fetos. Em pessoas que utilizam muitos plásticos, para beber água, para colocar remédio, etc, o nível de testosterona na mãe aumenta e passa para o feto e isso pode causar o hermafroditismo na criança, mesmo que não saibamos quantas crianças nascem com o hermafroditismo. Tem também a questão da homossexualidade e o aumento desta ocorrência pode estar relacionado com o uso excessivo do plástico em contato com alimentos. E o interesse econômico leva meio que a esconder isso da população, pois mexe com empresas de grande porte que fabricam o plástico. Se isso viesse à tona como deveria, as empresas não poderiam mais fabricar e estas empresas grandes quebrariam. Acredita-se que a indústria do plástico tenha "comprado" todo um estudo feito por doutores de uma universidade na Inglaterra sobre este assunto, porque esse estudo simplesmente 'sumiu'. Mas nós temos uma cópia. Neste estudo, feito pelos mestres desta universidade, foram colocadas gaiolas com peixes na saída de esgoto de indústrias de plástico. Os peixes eram machos e todos viraram hermafroditas em quinze dias; eles adquiriam o sexo feminino junto com o masculino. Hoje, na Europa, não se utiliza mais tanto o plástico em alimentos, se utiliza quase tudo em vidro. A Coca-cola, por exemplo, já te servem no copo. A água vem em garrafas de vidro de um litro e se tu comprares uma garrafa de água para beber e não beber ela toda, deixares um restinho ali, já te olham de cara feia. Quando fomos à Itália pela primeira vez, uma pessoa num bar correu atrás de nós na saída para dizer que havíamos esquecido a água. Eles dão muito valor à água. Lá, salgadinhos, pacotinhos de batatas-fritas, são todos embalados em embalagens recicláveis. As batatas Pringols, por exemplo, vêm em embalagem de papelão, enquanto as nossas embalagens aqui têm na composição plástico, papel, alumínio, tudo misturado. Lá estão muito mais avançados. Aqui temos muito o que fazer, inclusive em termos de educação. Num domingo destes, minha filha e eu estávamos passando pela Avenida Planalto, em Bento Gonçalves e, do carro na nossa frente, primeiro jogaram uma garrafa plástica de refri na rua, depois um pacote de salgadinho e depois ainda uma garrafa de cerveja. Um absurdo sem tamanho. Nem em São Paulo se vê mais isso. Aliás, lembro anos atrás que, quando fazíamos a FIEMA, ficávamos um mês ou dois por ano lá. Comparando, hoje São Paulo mudou completamente para melhor. Até o Tietê, passamos bem na margem, não tem mais tanto cheiro, houve todo um trabalho de despoluição. Eu até comentei isso no hotel onde parei, que eles conseguiram despoluir vários quilômetros do Tietê. Isso realmente me surpreendeu. Então, se eles conseguiram despoluir o Tietê, nós podemos conseguir despoluir Bento Gonçalves também.