Manuel Luís Benevengas Sarmento

Ele ganhou seu primeiro cavalo crioulo com um ano de idade. Apesar de mal conseguir se equilibrar de pé, o guri já podia ter uma certeza: o animal faria parte de sua vida.

Ele ganhou seu primeiro cavalo crioulo com um ano de idade. Apesar de mal conseguir se equilibrar de pé, o guri já podia ter uma certeza: o animal faria parte de sua vida. Criado no lombo de um Crioulo, o atual presidente da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC) e proprietário da tradicional Cabanha SãoFrancisco, em Bagé, campanha gaúcha, Manuel Luís Benevengas Sarmento seguiu os passos de seu avô, Belisário Sarmento, responsável pela importação do primeiro cavalo Crioulo ao Brasil, 1930.
“Lito”, como é conhecido entre amigos, assumiu ainda jovem o destino da Cabanha que passou de pai para filho desde que foi criada em 1931 e até hoje já contabilizou 1.400 Registros Particulares. As paredes da Estância são adornadas pelas fotos de um passado imponente e continuado, com alguns dos mais importantes capítulos da história do cavalo Crioulo no Brasil. Parte desta história, aliás, encontra-se no famoso livro vermelho, onde o avô Belisário Sarmento fazia diariamente suas anotações. Guardado como relíquia, o antigo caderno foi continuado geração após geração e hoje representa uma das principais heranças de Manuel. A paixão pelos cavalos converteu-se em conhecimento.Crioulista bem sucedido, líder atuante na entidade e pai orgulhoso e apaixonado, Manuel mostra nesta entrevista porque foi aclamado por unanimidade presidente da ABCCC.
NOI - O senhor é neto de Belizário Sarmento, um homem com um legado incrível e pioneiro na importação de Crioulos do Uruguai. Além disso, foi um dos fundadores da Associação que hoje o senhor preside. Nos conte um pouco desta história.
M.L.B.S. - Exatamente. Meu avô trouxe em 1930, importado do Uruguai, o primeiro cavalo Crioulo para o Brasil. Já a ABCCC foi criada em 1932, juntamente com um grupo de criadores da região de Bagé. Desde a década de 30, com a criação da entidade e a forte ligação com o país vizinho, muitos cavalos Crioulos passaram a ser trazidos à Campanha gaúcha. Meu avô passou a vida inteira no campo e isso se perpetuou de geração em geração até hoje. Para ser sincero, não temos outro negócio, nem outra aptidão. Acredito que todo o negócio familiar depende muito de continuidade. Eu tive o privilégio de seguir o mesmo caminho de meu pai e ele de meu avô. E um privilégio ainda maior porque meus filhos já sinalizaram que vão seguir também. Em 2010, a nossa cabanha comemorou 80 anos de trabalho.
NOI - Mas nesses 80 anos, muita coisa mudou no mundo. E a criação de Crioulos se expandiu mas foi nos últimos anos que aconteceu um grande crescimento. Como o senhor avalia o mercado atual?
M.L.B.S. - Temos um produto de excelente qualidade. O cavalo Crioulo é um produto muito bem feito, fruto de séculos de seleção natural aprimorada depois pelo homem a partir das necessidades dos peões na época e não somente para fins comerciais. Isso deu uma base muito bem feita, muito forte, tanto para a raça quanto para a instituição, a Associação, que se criou a partir de então. Isso alicerçou todo o processo evolutivo. Por conta disso ele hoje é um dos cavalos mais completos. Uma das dificuldades que tínhamos era o fato de ser um cavalo da Região Sul, sendo o Brasil do tamanho que é. Isso nos deixava muito isolados do restante do país, dificultava o conhecimento deste verdadeiro diamante que, de um certo tempo para cá, passamos a lapidar. A associação percebeu isso e passou a trabalhar com este foco. A partir de provas completas e bem concretizadas e divulgação na mídia o resultado não poderia ser outro: os números começaram a duplicar a cada ano por conseqüência de um produto muito bom com uma base bem feita e uma entidade séria, com credibilidade, muito bem administrada no correr dos anos. Todos os presidentes que passaram pela ABCCC tiveram a felicidade de fazer, no momento certo, a coisa certa.
NOI - No Brasil, é no Rio Grande do Sul onde se concentra o maior número de criadores?
M.L.B.S. - Sim, 84% da criação de cavalo Crioulo está no Rio Grande do Sul. Mas em todos os estados do país há criatórios atualmente. Ao todo, são 77 núcleos de criadores em todo o Brasil. Hoje trabalhamos para mostrar nosso cavalo em novos mercados, nacionais e internacionais. Temos obtido resultados positivos. A transmissão de nossas provas na televisão tem dado ainda mais visibilidade e retorno.
NOI - A raça Crioula é genuinamente brasileira?
M.L.B.S. -Não, é uma raça sul-americana. Ela existe no Uruguai, na Argentina, no Chile, no Paraguai e no Brasil. O cavalo genuinamente brasileiro, que só existe no Brasil, é o Mangalarga, feito e criado aqui. O Crioulo é sul-americano e justamente por ter sido criado numa evolução natural em vários países, tornou-se extremamente resistente. O animal enfrenta muito bem tanto a neve no Chile quanto o calor de 40 graus do Nordeste brasileiro. Suporta toda a variação de clima do nosso estado, enfim, se adapta a toda e qualquer ambiente e clima. Esse é o grande trunfo do cavalo Crioulo que decorre de 500 anos de seleção natural. Quando o homem colocou as mãos nele, ele já tinha guapeza, resistência.
NOI - Como estão as exportações para além dos países sul-americanos?
M.L.B.S. -Já temos Crioulo nos Estados Unidos, na Alemanha e na Itália. Inclusive há criadores levando animais para competir em provas, principalmente de rédea americana, uma modalidade olímpica, nestes países. Esses cavalos conquistaram lá prêmio de destaque, competindo com todas as raças. No último Equest Mundial, ocorrido em novembro de 2010, pela a primeira vez o Brasil teve um representante com dois cavalos Crioulos participando. A melhor colocação foi 13° lugar, o que foi considerado muito bom, apesar de sabermos que o Crioulo tem capacidade para conseguir um resultado ainda melhor. Hoje temos muitos contatos com americanos, inclusive há gaúchos criando cavalos naquele país. O que percebemos é que eles não são apegados a raças; apenas querem cavalos bons, que façam o que esperam que faça. Nosso cavalo mostrou aptidão e, consequentemente, grande aceitação. Sabemos que entrar no mercado americano é um processo gradual, mas já escutei em congressos da raça um criador dizer que não há dúvidas de que o cavalo Crioulo em breve dominará na Europa.
NOI - O senhor fez parte de vários júris do Freio de Ouro. É uma responsabilidade muito grande, não é mesmo?
M.L.B.S. -Sim, atuei como jurado desde os meus 18 anos, mas agora não faço mais por ser presidente da entidade. Já julguei muitos Freios de Ouro e digo que é uma das coisas mais difíceis de se fazer por ter que observar muitas sutilezas e detalhes. Exige muito conhecimento e concentração. Uma prova de Freio de Ouro é muito longa e passamos muito tempo julgando. É uma prova muito rigorosa e séria e precisamos levantar a placa com a nota assim que o cavalo termina o movimento, muitas vezes diante de uma platéia de 15 mil pessoas. Isso implica em rapidez, raciocínio e muita concentração. Penso em pendurar as chuteiras como juri, porque é uma atividade realmente complexa e exaustiva, mais do que presidir a ABCCC. (risos)
NOI - Falando em ABCCC, que desafios o senhor vislumbra em sua gestão?
M.L.B.S. -Meu desafio é manter este crescimento fabuloso que ocorre há 10 anos no setor. A associação está muito bem estruturada e organizada, como grande entidade que é. Outro desafio é fazer a raça Crioula crescer nos demais estados brasileiros do Brasil como a mesma força que cresce no Rio Grande do Sul. Sabemos que é um processo longo, mas temos confiança. Queremos levar nossa associação mais próximo dos criadores mais distantes e isso é um desafio porque nosso calendário é muito justo, apertado. Em 2010, tivemos 576 eventos oficiais da entidade com a raça . Neste ano, ainda não se encerrou o prazo para inclusão de eventos e já temos 670 marcado em todo o Brasil. Todos são oficiais da entidade, uma média de dois eventos por dia durante o ano. Atualmente realizamos 15 a 16 eventos a cada fim de semana. É um numero impressionante. Não sei se há outra entidade de criadores de cavalo de raça no mundo com esse número de competições. Esse calendário é marcado com antecedência e todo ele cumprido em todas as suas etapas até as provas finais, sem mudança de dia, hora, local. Isso nos dá muita credibilidade.
NOI - Quando se fala em doma Tradicional, Racional, Horsemanship como o senhor avalia a necessidade de mercado quanto à evolução no trato do cavalo, e quais as tendências com relação a isso? Mas existe um algum pensamento ou reflexão na entidade com relação a essa questão?
M.L.B.S. -Muito. O que mais evoluímos foi nisso a partir do momento em que montamos uma prova que passou a exigir um cavalo muito bem equipado e muito bem apresentado, tivemos que buscar técnicas de trabalho, de doma, de ração, de preparação. E embora o gaúcho tenha uma imagem um tanto fechada, apegada ao que é seu, a Associação sempre esteve muito aberta à aplicação de tudo o que de melhor apareceu em termos de conhecimento nesta área. Doma americana, rédea, técnicas usadas em São Paulo, enfim, tudo o que há em matéria de equitação nós procuramos absorver e podemos dizer que, de tudo, tiramos um pouco e evoluimos no trato de cavalos, no treinamento. É justamente o caso de novas técnicas de doma, como doma Racional, doma Natural Horsemanship, uma equitação técnica. Tudo isso o gaúcho não usava. O gaúcho veio da doma índia, tradicional, uma equitação tradicional, clássica. Isso evoluiu muito e hoje a grande quantidade de novos profissionais com outro nível de pensamento e capacidade para trabalha técnicas mais aprimoradas é o grande avanço que existe no setor, fruto até de um processo de exigência do mercado, nos ensinando sempre a sermos melhores. Hoje a equitação gaúcha do cavalo Crioulo de treino é admirada na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Paraguai... porque tivemos a habilidade e a oportunidade de aproveitar um pouco do que há de melhor em cada escola para montarmos a nossa.
NOI - Antigamente o cavalo era usado para transporte e serviços que ao longo do tempo foram sendo substituídos por veículos automotores. Numa visão de futuro, como o cavalo se encaixa na vida do homem?
M.L.B.S. -No trabalho,sim, ainda, mas fundamentalmente no esporte e lazer. Essa relação do homem com o cavalo Crioulo começou só com trabalho, ajudando na lida do campo e levando a distantes fronteiras. Hoje, esportivamente o Crioulo é um cavalo supercompetitivo, em todas as provas que tem entrado tem estado na ponta. E, logicamente, ele está ada vez mais presente hoje no lazer da família. São famílias crioulistas, como nos chamamos, que foram criadas em torno do cavalo ou que começam a experimentar o prazer de ter um cavalo ou mais, fazendo parte do seu lazer diário ou de fim de semana, contribuindo muito inclusive, com a união familiar. As famílias se tornam mais unidas em torno desta relação com o cavalo.
NOI - Apesar do desenvolvimento industrial e da topografia acidentada, na Serra Gaúcha temos observado um crescimento interessante no setor. Como a Associação vê este mercado?
M.L.B.S. -A entidade vê a Serra como a região de maior crescimento de mercado nos últimos anos no noso estado. A Fronteira é o berço da criação de Crioulos e a Serra tem usuários. Comercialmente a Serra é importantíssima. Além do alto poder aquisitivo, já tem também grandes criatórios. No país, Santa Catarina e Paraná registraram um aumento inédito, percentualmente maior do que em nosso estado no ano passado.
NOI - Pessoalmente, o senhor tem um sonho, uma meta, algo que gostaria de atingir, realizar?
M.L.B.S. -Eu sou relativamente novo e realizado em praticamente tudo, mas principalmente na vida familiar. Desde muito moço sonhava que meus filhos algum dia tomariam o mesmo caminho que eu, que minha família. Tinha receio de que talvez viessem a cortar essa continuidade do processo familiar iniciado por meu avô. Essa continuidade sempre foi meu grande sonho e está sendo realizado diariamente pelo Manuel e pela Luiza, meus filhos. A Luiza tem 22 anos e está terminando a faculdade de veterinária, Manuel está com 18 e prestes a entrar na faculdade de Administração, na Universidade Federal de Santa Maria e os dois adoram campo. Em Bagé, cidade onde residimos, temos a estância no interior da cidade. Lá criamos nossos filhos até atingirem mais ou menos 10 anos de idade. Desde então, nos finais de semana, se eles não fossem pro campo, incomodavam muito (risos). Não admitem ficar na cidade nos finais de semana. Muitos domingos de manhã acordei bem cedo comentando com minha esposa que àquela hora, muitos amigos nossos estavam buscando seus filhos na boate, enquanto os nossos estavam dormindo tranquilamente sob os nossos olhos. Isso é uma graça de Deus. Os dois já deixaram bem clara sua opção de dar continuidade ao negócio da família, à vida no campo, com o profissionalismo próprio do seu tempo. Esse era o maior sonho da minha vida.
NOI - Vocês parecem ser muito unidos...
M.L.B.S. -A partir do momento em que a Luiza e o Manuel começaram a participar das questões do meu trabalho, quem mais me motivou para fazer as coisas darem certo foram justamente eles. É impressionante. Eles me cobram resultados e ajudam a gerir nosso negócio, a Cabanha São Francisco, uma típica estância onde trabalhamos com gado de corte, ovinocultura e cavalos. Realizamos um leilão a cada dois anos na sede da estância.
NOI - Já pensaram em escrever a história do seu avô?
M.L.B.S. -Mais ou menos. Um livro propriamente dito confesso que nunca passou pela minha cabeça. Mas há diversos livros sobre cavalos Crioulos que citam o nome e relatam a história da nossa família. Entretanto tenho boa parte da história do meu avô guardada nos armários da nossa estância, graças à sabedoria que ele teve de registrar tudo num diário, atitude que meu pai seguiu e que eu sigo, diariamente. Meu avô criou, assim, um livro memorial, o chamado diário, que manteve por muitos anos. Tenho diários do meu avô desde 1930, quando ele começou a trabalhar com Crioulos. Todos os dias ele relatava o que ocorria. Sempre quando posso leio, escolho o ano e me debruço. Ele registrava, por exemplo, o nascimento de um cavalo, o acasalamento que fez, as características de cada animal, a data de sua morte, enfim. Documentou tudo. É uma jóia, guardo com bastante cuidado porque é algo de muito valor pessoal. Ele registrava tudo. Para ter idéia, está registrada a primeira noite que dormiu na casa que ele próprio construiu e que hoje é a sede da nossa estância. Foi no dia 14 de julho de 1930, data da queda da Bastilha. E assim, eu, todos os dias acordo cedo, faço meu chimarrão – não faço nada antes de tomar o meu mate – e com a mente fresca começo o dia escrevendo tudo o que fiz no dia anterior. Tem gente que não dá valor a isso, mas pra mim não existe vida se não escrever o que eu faço todos os dias. É assim que se faz a história e uma história é o maior patrimônio que uma pessoa pode ter.

Manuel Luís Benevengas Sarmento

Ele ganhou seu primeiro cavalo crioulo com um ano de idade. Apesar de mal conseguir se equilibrar de pé, o guri já podia ter uma certeza: o animal faria parte de sua vida.


Mariete de Carli e Cláudia Carraro

Diretoras da Eco-Preservação Ambiental, comentam o que viram na IFAT 2010


Feito na serra gaúcha

Onde o setor pretende chegar?


Paola Reginatto Vist

Esta na hora de ousar