José Fernandes Martins

Fala das suas origens, da revolução que o projeto ‘Caminho da Escola’ está fazendo no transporte escolar do Brasil.

José-Fernandes-Martins José-Fernandes-Martins
NOI - O que é o projeto 'Caminho da Escola'?

José Fernandes Martins - O ministro Fernando Haddad, da Educação, é um dos que está apoiando nosso projeto de ônibus escolares, que é um dos maiores projetos para a área agrícola. Com o nome 'Caminho da Escola', visa a criação de uma frota de ônibus rurais para escolas rurais. É um projeto que não existia, voltado para o interior do Brasil. Nós aqui até temos menos problemas mas lá no Norte, no Nordeste, você não faz idéia das dificuldades que as crianças têm para chegarem nas escolas. Muitas não iam e se perdiam, deixando de estudar por não terem uma logística de transporte. Agora, com o Caminho da Escola, o governo criou um segmento no transporte que supre exatamente esta demanda que sempre existiu mas até então não tinha equipamentos para transportar as crianças. O programa começou em 2008 e foram licitados, inicialmente, através do FNDE- Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, três mil veículos. Em 2009 foram licitados mais 6.500 e, em 2010, mais cinco mil. Além destes, alguns governadores compraram veículos com seus próprios recursos. O Requião, por exemplo, no Paraná, comprou mais 2.000 unidades em 2009. O governador do Mato Grosso está comprando mil, o Serra, em São Paulo, comprou 950, e outros governadores compraram 70 ou 80 veículos, de modo que hoje já está se formando um universo de 20 mil ônibus escolares rurais no Brasil, um segmento que não existia. E eu pessoalmente sempre fui um apaixonado pelo transporte escolar, assunto que nunca, no Brasil, ninguém deu importância. Pesquiso isso, parece mentira, desde 1968. Fui aos Estados Unidos e, lá, o transporte escolar é o mais importante que existe no país, hoje. Em qualquer filme americano que você assistir, vai enxergar aquele onibusinho amarelo passando no cenário. Para se ter uma idéia, enquanto a frota brasileira total de ônibus hoje está em torno de 380 a 400 mil veículos, entre rodoviários, urbanos, micro ônibus, etc, só a frota de school bus dos Estados Unidos está em torno de 420 mil veículos. E a produção anual dos Estados Unidos só de School bus chega em torno de 40 mil, enquanto, no Brasil, em todos os segmentos, produzimos juntos 34 a 35 mil ônibus por ano. Assim, isso agora já foi estudado pela própria Universidade de Brasília e nós estamos trabalhando neste programa, Caminho da Escola, E o Volare é o micro ônibus feito para levar com segurança o que se tem de mais precioso na vida, os estudantes, inclusive em condições de estradas precárias. Este segmento nós, da Marcopolo, trabalhamos junto ao Governo Federal e junto com a Universidade de Brasília que mapeia todo o sistema de ônibus na área escolar rural. Com isso se criou um segmento impressionante e agora estamos tratando de fazer esse transporte escolar rural ser padrão também na cidade. Hoje a frota que opera nas cidades está em torno de 90 a 95 mil veículos, entre kombis, vans, caminhões de carga, pau-de arara, qualquer tipo. Hoje a criança é transportada sem a mínima responsabilidade, tanto que uma kombi ou van não oferecem um requisito mínimo necessário de resistência no caso de um acidente ou choque. E esses ônibus nossos, que são semelhantes aos veículos americanos, foram estudados no Inmetro e no Conmetro, prestando atenção principalmente a normas de segurança que são o ponto alto do school bus americano. Eu levei pessoas também do ministério da Educação, do Denatran e Inmetro aos Estados Unidos para ver uma fábrica de school bus e todos eles perceberam que aquele sonho poderia se materializar aqui. Então criarmos, na área urbana, um processo com o qual estamos trabalhando atualmente junto ao governo federal, para obrigar todo veículo que transporta crianças a estar dentro destas especificações. Se não estiver, não pode transportar crianças. Isso vai dar uma verdadeira revolução.

NOI - Na prática, como se faz isso?

J. F. M. - O que pode ser estudado, na prática, é a criação de uma lei para a área urbana, assim como foi criado o programa Caminho da Escola no meio rural onde van não opera, kombi não opera, só veículos que tenham estrutura de chassis por baixo. Queremos estender o que já foi feito aqui na área rural para a cidade. Só que aí são volumes dez vezes maiores. Imagine trocar esta frota de 90 mil ônibus, vans e veículos inadequados; vai ser preciso, provavelmente, um trabalho político, junto à Câmara federal, para se criar uma lei como foi criada a lei da acessibilidade segundo a qual a partir de 2014 todos os ônibus deverão que ter o equipamento de acessibilidade para deficiente físico. Se foi criado este equipamento para deficiente físico, por que não criar para a criança que é tão ou mais importante? O futuro do país é a criança e nós estamos transportando ela como um lixo.

NOI - A grande verdade é que a criança ainda não é nosso foco de visão no país, nem na nossa cidade, no dia a dia, não tem sequer alternativas para a criança, onde vai uma criança em Caxias, por exemplo, no final de semana? Ou em Bento Gonçalves? Ou Garibaldi?..

J. F. M. -Pois é, não se tem alternativas, não se presta atenção como se deveria. Hoje, por exemplo, veja como as crianças vão de van ou kombi para a escola; que nem sardinha em lata dentro da kombi, sem cinto de segurança, nada. Nos Estados Unidos isso é tão cuidadoso que o ônibus escolar lá, quando pára, baixa uma mãozinha mecânica do lado externo do motorista e nenhum carro ultrapassa um ônibus escolar quando ele pára. É impressionante como eles levam a sério a legislação americana. São esses 'bichos feios' (ônibus amarelos), mas eles têm tudo para segurança. Até na frente eles possuem uma barra de proteção com dois metros de comprimento que impede a criança de cruzar muito perto na frente do ônibus, quando ele está parado, evitando assim que ela possa não ser vista pelo motorista ao arrancar. É impressionante, um ônibus feio, mas extremamente forte, funcional, que visa absolutamente a segurança, com cor amarela, cor forte, para ser realmente visto. Este vai se tornar o sistema de transporte coletivo mais impactante da história do Brasil.

NOI - Já está em andamento essa questão para a área urbana?

J. F. M. -Não, eu estou trabalhando isso no governo e nos próximos dias será feita uma audiência pública . Depois vamos trabalhar junto a deputados, ao Cometro, ao inmetro, ao Denatran e todos os órgãos federais que cuidam das especificações técnicas e do trânsito para poder estipular o ônibus ou melhor, os ônibus, porque não se pode nunca especificar apenas um tipo; tem que ter ônibus pequeno, médio e grande, dependendo muito da cidade e da posição onde pegam os alunos. Porque se pegar um ônibus de 80 lugares, como são os dos Estados Unidos, e as crianças não morarem perto umas das outras, o aluno que é apanhado primeiro tem que acordar às 4 da manhã e o último a ser entregue chega em casa às oito da noite. Nestes casos é preferível ônibus pequenos de 25, 26 ou 30 lugares. Mas quando as crianças moram em aglomerados próximos, aí se pode usar um ônibus de 50 a 70 lugares. Tudo isso está sendo estudado e definido como foi com o ônibus rural, que tem seis modelos, três tamanhos e dois tipos de resistência. Se as estradas são ruins, pegam um mais reforçado, ou então o comum que é o ônibus normal que trafega também em estradas ruins mas não tão ruins.

NOI - Aqui, no nosso interior, já trafegam estes ônibus escolares amarelos?

J. F. M. -
Já, em quase todas as nossas cidades. Em Antônio Prado, por exemplo, tem quatro, em Farroupilha também tem...

NOI - E Bento? E Caxias?

J. F. M.
-Em Caxias me parece que o Sartori encomendou recentemente, mas veja: este ônibus só pode trafegar na área rural, não é ônibus para circular no meio urbano.

NOI - Quer dizer então que na área rural a questão já está mais estruturada do que na área urbana?

J. F. M.
-Exatamente. É o Programa Caminho da Escola. É um nicho de mercado novo que cria, não só para a Marcopolo mas para todos os fabricantes de ônibus, um segmento novo de mercado aqui no Brasil. Pessoalmente estou me dedicando muito a isso, o presidente Lula apoiou desde o início e é um grande apoiador deste projeto, a Dilma também e o Fernando Haddad também é um grande entusiasta deste projeto. Então, como a gente pretende que haja uma continuidade deste governo, provavelmente, quase certo, este projeto não vai ser interrompido..

NOI - É, mas até acho que, independentemente de quem seja governo, não deverá ser interrompido..

J. F. M.
-Sim, provavelmente, o próprio Serra, quando expliquei a ele este projeto, imediatamente mandou comprar 950 ônibus. Veja, nós aqui em Caxias já temos vários micro ônibus em uso escolar na área urbana, mas eles então terão que ser adaptados às especificações de resistência destas carrocerias e ser pintados de amarelo, com a faixa preta, com cinto de segurança... Serão veículos especificados pelo Inmetro de maneira que, o transporte escolar, para você registrar como tal, terá que obedecer estas especificações. Como aconteceu com as motos, por exemplo; para andar de moto tem que usar capacete, senão o guarda multa. De fato, estamos criando um novo segmento, uma nova fase e trazendo para os pais e para a própria criança uma garantia de seriedade, de segurança, que antes não tinha. A gente nota, aí, o jeito como as crianças são transportadas, é uma barbaridade. Então isso tudo é um novo cenário, uma contribuição fundamental da Marcopolo para o setor como um todo, tanto que aquele ônibus miniatura ali foi a Mascarello (fabricante de ônibus) que enviou a mim de presente, agradecendo nosso esforço porque ela também é beneficiada por este negócio novo que, se Deus quiser, vai deslanchar cada vez mais.

NOI - Gostaríamos que o senhor falasse também um pouco sobre um assunto que poucos têm conhecimento, que é a sua origem, aspectos da sua infância, trajetória, que mostrem como se formou a base desta fortaleza que é a sua pessoa.

J. F. M.
-Não sou um cara de boa memória, tenho poucas lembranças, mas nasci em Porto Alegre, meus pais se chamavam Oscar e Prudência. Meu pai trabalhava no Tesouro do Estado, era um dos chefes da arrecadação. Faleceu em 1949, eu tinha então 15 anos, ele tinha 63. Nós éramos em oito irmãos. Eu, com 11 anos, inventei de ser padre, idéia minha, a mãe era muito católica e acabei indo para o seminário de padres seculares, o São José, de Gravataí, em 1945, logo após o fim da segunda Grande Guerra. E lá fiquei por quase seis anos. Cursei todo o seminário menor, do primeiro ao sexto ano. Aí, em 49 meu pai faleceu e em 1950 eu saí porque, sem o pai, a família ficou com muitas dificuldades financeiras. Meu pai era um sujeito bem de vida então, basicamente, meus irmãos e eu, nenhum trabalhava. E naquela época não havia seguro, aposentadoria, coisa nenhuma e assim passamos uma fase difícil. Saí do seminário para trabalhar, tentando buscar um dia ser alguém. Eu me mantive um bom tempo dando aulas de latim e português. Naquela época se falava latim fluentemente. Durante quase seis anos, no seminário, tive nove aulas por semana, todas dadas em latim. Isso pra mim foi muito bom, aprendi latim, grego, a gente lia toda a Bíblia em grego e isso, em termos humanísticos, foi muito bom pra mim. Fora do seminário tive outro problema porque todo o ginásio que eu tinha feito não era válido, por isso tive que fazer o Artigo 91, que era a consolidação do ginásio. Fiz, passei, entrei no primeiro ano científico do colégio Júlio de Castilhos, até 1954. Fiz vestibular para engenharia. Por vocação para ser engenheiro? Não. Eu tinha o negócio de 'dinheiro' tão forte na minha cabeça que fui ver o que dava dinheiro; naquela época era ser médico ou engenheiro. Decidi ser médico. Aí um amigo me levou ao necrotério e quando vi aquele negócio de cabeça prum lado, perna pro outro, braço pro outro, me deu um choque tão grande que desisti. Atravessei a rua e me matriculei para fazer vestibular para engenharia (risos). Ser engenheiro mecânico, na época, gerava mais oportunidades porque era ano de 1954, Getúlio Vargas morreu naquele ano e, no Brasil, estava se formando a ideia do Juscelino Kubitschek, que assumiu em 56 e trouxe a indústria automobilística para o país. Então, coincidiu, bom pra mim que me formei em 59 e fui trabalhar na Albarus, multinacional que fabrica até hoje componentes na parte de eixos cardans e transmissões. Lá fiquei até 1965. Aí, numa viagem em que eu estava voltando dos Estados Unidos, encontrei o Nicola, que foi fundador da Marcopolo, junto o Bellini, e conversamos. Acabou eles me convidando a vir para cá e aqui estou até hoje. A minha história é muito curta; em termos de experiência passada como engenheiro só tive uma, que foi a Albarus. Claro, lá tive uma escola, que era na época a melhor 'escola' que existia. A Dana Corporation era, talvez, um dos maiores grupos de autopeças. Eu viajava com frequência aos Estados Unidos, passei um bom tempo de estágio lá, aprendi muito na área de engenharia e sempre fui um cara muito estudioso, muito crente. Isso me ajudou. Depois, quando vim pra cá, ajudei a criar na Marcopolo uma nova mentalidade, com tecnologia, engenharia de produção, a empresa foi crescendo, e hoje está aí o que é. Então, a minha história não é muito complexa, eu não pulei de um lado pra outro, tem gente que já passou por muitos empregos. Agora, em 2008 -até então participava do grupo de controle da Marcopolo- troquei minhas ações com direito a voto por ações preferenciais. Hoje eu não participo mais do grupo de controle, não sou mais diretor executivo da empresa, sou apenas membro do conselho de administração. E quando saí do grupo de controle, fizemos um contrato de Non-Compete Agreement, ou seja, acordo de não competição, segundo o qual fico oito anos ligado à Marcopolo como membro do conselho de administração, prazo que se encerra em abril de 2012, ou simplesmente como um consultor, atuando na área institucional e na área política, onde tenho um relacionamento muito bom. Talvez poucas pessoas tenham o relacionamento político que tenho, pelo menos em nossa área.

NOI - Pois é, mas se percebe que a Marcopolo está no seu sangue, que o senhor fala dela com muita paixão...

J. F. M.
-É, imagine, entrei aqui em 65, estamos falando de 45 anos. Então agora com minha não mais participação na área executiva, fui convidado a participar do conselho de administração de outras empresas também. Então hoje eu participo do conselho de administração do Grupo Mãe de Deus, em Porto Alegre, que é um dos maiores grupos hospitalares do estado. Participo do conselho de administração da Metasa, de Marau, que é uma empresa de estruturas metálicas pesadas, também da Artecola, que é uma empresa do Vale dos Sinos de grande expressão na área de plásticos, e participo ainda, há dois anos, do conselho curador da EBC - Empresa Brasileira de Comunicações- TV Brasil, que o Lula me convidou e a Dilma também e eu não consegui negar. Participo também do conselho estratégico de um grupo multinacional, a Void, que fabrica turbinas e atua na área de papéis, temos reuniões anuais. Assim, além da Marcopolo na área institucional, atendo estas empresas também, participando do conselho e assessorando. É muito bom porque se pode ajudar também a desenvolver técnicas novas em outras áreas e vamos assim desenvolvendo outras empresas. Sempre me interessei muito por estratégia, por criação de novos produtos. Esse ônibus Volare, por exemplo, foi uma coisa que surgiu da minha cabeça, o do transporte escolar idem. E participo ainda, como presidente, da Fabus (Associação Nacional dos Fabricantes de ônibus), do Simefre (Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários), que é talvez o quinto maior sindicato patronal brasileiro pois junta toda indústria metroferroviária, toda indústria de ônibus, de implementos rodoviários (Randon, Guerra, Facchini,e outros), toda indústria de motos e bicicletas e toda indústria de camping. É um sindicato monstruoso que representa um faturamento de mais de 15 bilhões de dólares entre todas as indústrias. E sou presidente deste sindicato há mais de 12 anos. Além disso tenho a presidência da Associação do Aço do Rio Grande do Sul, que representa 26% do PIB gaúcho. Afora isso ainda sou vice-presidente da Fiergs e acho que sou o único gaúcho que tem uma pasta de vice-presidente da Fiesp, que detém 42% do PIB, é uma coisa muito forte. Isso porque meu sindicato é nacional e nós é que elegemos o presidente da Fiesp. Então o Paulo Skaf me convidou e estou até hoje como vice-presidente da Fiesp. Através disso participo ainda do conselho superior na área de exportação e temos um conselho estratégico na Fiesp onde se juntam os pesos-pesados como Vale do Rio Doce, Usiminas, CSN, Nestlé, Pão de Açúcar... E a única empresa de Caxias que está lá é a Marcopolo. Aqui do Sul, só Gerdau e Marcopolo. Então, temos uma participação boa nisso e através dela nesta minha vida institucional, adquiri muitas amizades na área política. Fui, talvez, um dos poucos empresários que acreditou no PT e deu certo. Quando todo mundo fugia do PT, eu acreditei. Não sou filiado ao partido mas acho que o que os petistas fizeram é uma coisa extraordinária e que o Lula, principalmente, é um homem de um carisma extraordinário. O País, digam o que disserem, nunca esteve tão bem como agora, com dados macroeconômicos aplastantes, como reservas cambiais de mais de 260 bilhões, uma taxa de desemprego ínfima de 7,1%. Hoje todo o sistema é de estabilidade política, o crédito do Brasil que era, a pau e corda, 30%, hoje já está em 46%. Para se ter uma idéia, no primeiro semestre deste ano, comparado com o primeiro semestre do ano passado, o desenvolvimento dos setores de ônibus, caminhões, automóveis e máquinas agrícolas é uma coisa impressionante. Veja, segundo a Anfavea- Associação dos Fabricantes de Veículos automotores, a associação mais poderosa do Brasil, o crescimento do mercado de ônibus de janeiro a julho deste ano, aumentou 39,8%. O de caminhões aumentou 69,7%. Veículos leves: 16%. Veja bem, 16% sobre um total de 2, 074 milhões de veículos. Máquinas agrícolas: 54%. E o cara vai dizer que este governo não tá certo? O sujeito que diz isso ou é muito despeitado ou não lê, não está informado. Não tem como negar. Quando o país entrou em parafuso com a crise americana que estourou lá em fevereiro de 2008, explodiu aqui no último trimestre de 2008 e o país estava aí sem saber o que fazer, o Lula corajosamente tirou o IPI dos carros populares, reduziu em mais de cem bilhões o compulsório dos bancos, jogou mais de 20 bilhões na agricultura e ampliou o crédito para veículos comerciais, tratores, máquinas agrícolas e máquinas operatrizes, neste programa que ele chamou de PSI - Programa de Sustentação do Investimento. O juro, que era TJLP mais 3% mais spread do banco em 15 a 17% ao ano, reduziu a 7% numa cacetada só, fixo, sendo que, no Procaminhoneiro, que viabiliza o caminhão pra pessoa física, e no trator- máquinas agrícolas e operatrizes, 4,5%. Então, se comprava um trator para pagar em oito anos, a 4,5% de juro ao ano. Isso deu essa explosão. Há muitos economistas, que são os arautos do derrotismo e parecem fazer questão que o Brasil afunde, criticando e questionando como é que o Tesouro - pois esse dinheiro é equalizado pelo Tesouro Nacional- capta o dinheiro a 10,75%, que é a taxa da Selic,e empresta pro BNDS a 7 ou 8%. Dizem que isso é uma barbaridade. Claro, se for raciocinar matematicamente, é. Mas ninguém se lembra do que isso gerou de empregos, do quanto isso aumentou o faturamento das empresas e, consequentemente, mais IPI, mais ICM, mais Cofins, mais Imposto de Renda, mais tudo, enfim, isso eles não falam. Tem muita gente batendo forte no Governo contra isso mas é uma coisa que nós, industriais, estamos defendendo no governo e o empresário cada vez é mais simpatizante desta estratégia que o Governo está tendo. O progresso que as indústrias estão tendo não é porque contrataram diretores melhores; é porque o Governo criou essa linha de crédito. Na hora em que o Governo tirar essa linha de crédito, isso se desmancha como um gigante com pé de barro. O crédito hoje é a maior alavanca de progresso do país. Porque todo mundo tem aversão ao risco. Quando começa a trepidar, todo mundo vai lá e tira o crédito. E onde se tirou o crédito, começa a desacelerar a economia, chegando ao ponto em que está hoje os Estados Unidos, com medo da deflação, que é pior do que a inflação. Estavam prevendo lá uma inflação de 1,7 a 2,7% e deu agora, no primeiro semestre, 0,9%. Ou seja, ficou bem abaixo da meta. E quando há deflação é sinal de que o país está parando, está minguando. Isso é um problema muito sério. Ou seja, não tendo inflação nenhuma, significa que não há demanda. O que provoca o aumento de preço? A demanda. Se não tiver ninguém pra comprar este telefone, o preço dele vai baixar cada vez mais e os caras, olha, vão pagar para alguém levar ele pra casa, entende? Então, uma inflação baixa é fundamental mas a deflação é a pior coisa que existe. Resumindo, enfim, esse trabalho é o que faço hoje, um trabalho de associações de classe, não só para a Marcopolo e sim para todo o setor. É um trabalho que me permite uma conexão grande na área política e que dá uma visão grande de país, de estratégia; não se fica com a cabeça só 'sentada' dentro da Marcopolo. A Marcopolo é uma grande empresa mas não é o mundo. Esta atuação externa de fato abriu muito minha cabeça, me fez conhecer pessoas, aprender sobre estratégias e não me deixou ficar concentrado só dentro da fábrica.

NOI - Quando o senhor chegou a Caxias do Sul já trazia consigo uma respeitável bagagem profissional construída dentro da Albarus e também como professor da faculdade de Engenharia Metalúrgica da UFRGS, apesar de ter então apenas 32 anos de idade. Como era Caxias, na época, aos seus olhos? Quais eram os seus planos? O que mudou? E o que mudou em Caxias?

J. F. M.
-Eu não conhecia Caxias, só de ouvir falar. O que mais determinou minha vinda pra cá foi o seguinte: em 1965 a Albarus era dos americanos e do sr. Albarus, controlador na época, que tinha um genro, chamado Haroldo Dreux, era piloto de corrida de automóveis,. E nós éramos muito aficionados às corridas, época das carreteiras, Catharino Andreatta, Julio Andreatta...

NOI - Bertuol...

J. F. M.
-..Bertuol, isso aí. E em 65, depois da revolução de 64, o Brasil começou a entrar em crise. Na crise nascem as discussões e os desentendimentos. E o sr.Albarus começou a se desentender com seu genro, o Haroldo, que era vice-presidente. O Haroldo era um cara com cabeça expansionista e o Sr. Albarus era um cara de stand-by. Aí se desentenderam e o Haroldo saiu da empresa, eu resolvi tomar o partido dele. O Haroldo, por sua vez, era muito amigo do Nicola e do Bellini, e aí eu acabei vindo para cá. Senão não teria vindo. Naquela época Caxias era uma cidade diferente, aqui tudo girava ao redor de Eberle, Madezatti, Madezorzi e Sehbe, empresas que davam as cartas. Randon, Marcopolo, nós éramos pequenininhos. E vi que havia um espaço muito grande para trabalhar. Acreditei, trabalhei, Caxias sempre foi uma cidade que se dedica muito ao trabalho, apesar de não ser uma cidade que se dedica muito à cultura, Então, esse choque, realmente, a gente tem ao chegar. Mas aos poucos se vai absorvendo esses impactos, se adaptando e criando a sua própria cultura, a sua própria maneira de pensar e viver. Sempre fui um cara muito estudioso, leio muito, gosto muito de arte e, aqui em Caxias, quem é que tem obra de arte? Muito pouca gente...

NOI - Essa questão da arte, realmente, não só em Caxias mas em toda a região, parece que agora está despertando um pouco mais ...

J. F. M
. -Eu acho que agora, com a vinda de todas estas universidades -alguns dizem que é uma poluição de universidades- o fato é que estas universidades todas trouxeram cultura, trouxeram ensino. Antes o sujeito que se formava no segundo grau aqui tinha que ir a Porto Alegre estudar. Hoje não; tem a UCS que cresceu e todas estas instituições de ensino superior que até nem sei quantas são. Na época que vim pra cá, eu era um dos poucos engenheiros operando aqui, tanto que a minha turma de engenheiros foi a primeira a se formar no estado. E éramos nove formandos, imagine, em 1959, uma jóia rara, porque não havia este profissional no mercado. Por isso digo que, através dessa criação grande de universidades na região, foi sendo aberto um caminho pra cultura. Hoje já se encontra em Caxias, por exemplo, exposições de obras de arte, palestras sobre arte, no teatro da UCS tem concertos de música quando antes nem se sabia o que era isso. Se falasse de obra de arte ou de uma escultura ou algo assim, não se tinha eco. Hoje Caxias ainda não é a cidade que deveria ser. Acho que, em termos de arte, pelo poder econômico que Caxias tem, deveria haver mais prestígio aos nossos artistas. Pergunto, quem é em Caxias hoje que investe em obras de arte? Muito pouca gente.

NOI - Pois é, até porque a arte, além de ser arte em si, é um investimento econômico interessantíssimo..

J. F. M
. -Muito. É um investimento bom. Agora, o nosso pessoal, na sua formação, veja, você não vai comprar um quadro que custa aí 200 ou 300 mil dólares, se não conhece arte, não sabe quem é um Di Cavalcanti, uma Tarsila do Amaral, um Lasar Segall, senão vai assinar um cheque sem fundo... Mas os nossos jovens estão começando a estudar. Já participei de várias vernissages em Caxias, de artistas nossos, e já se nota uma frequência boa, muita gente nova. Essa gente nova está trazendo o que o pessoal mais antigo não absorveu.

NOI -É que, na verdade, passamos 20 anos focados na inflação e nossa preocupação foi essa e se formou uma geração inteira em cima disso e não havia espaço para cultura num cenário assim...

J. F. M.
-O pessoal hoje da minha idade, eu, o Randon, o Bellini, o Valter, e todo esse pessoal como os Madezatti, Madezorzi, enfim, somos uma geração de transição, ou seja, veio da carroça puxada com cavalos para o avião a jato. Nós somos produto de uma segunda Grande Guerra, que destruiu mais de 40 milhões de vidas, para uma situação atual onde você está com tecnologia de informática, altas velocidades... Tudo mudou. E esse desenvolvimento mundial foi feito por nós mas nós não tivemos tempo, só trabalhamos. Trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos....então aqueles que, na época, tinham cultura, além do trabalho, puderam aperfeiçoar mais a sua cultura mas aqueles que não tiveram condições de estudar, como foi o caso de muitos aqui em Caxias que começaram do zero, na colônia, só tiveram tempo para trabalhar. E hoje muitos daqueles estão começando a comprar os seus quadros, a se dar o prazer, ver que é interessante ter um quadro bonito na parede, já noto isso, mas ainda não estamos no estágio que ambicionaria..

NOI - Mas caminha-se para isso..

J. F. M
. -Caminha-se, devagarinho... Por exemplo, em São Paulo e Rio já se vê as pinacotecas dentro das empresas, quadros de artistas famosos. O Gerdau, aqui no Sul, é um que tem uma coleção grande dentro da empresa. Então Caxias vai um dia chegar lá..

NOI - Inclusive os Irmãos Campana, em entrevista para a NOI, que está no suplemento Arquitetura e Design, comentaram que as empresas deveriam ter uma direção de arte, assim como têm direção administrativa, comercial, financeira...

J. F. M.
-É, acho que seria uma grande contribuição para a arte e para a cultura. Hoje as empresas já têm, nas áreas de recursos humanos, projetos culturais que estão sendo cobertos com a Lei Rouanet. Um movimento neste sentido poderia ser lançado dentro de uma CIC ou Simecs para que nas áreas de RH das empresas houvesse uma divisão de artes.

NOI - No caso dos Campana eles referiram mais sobre a área da criação, de arte..

J. F. M.
-Mas isso hoje as empresas já têm, esta atenção ao design. Tudo hoje tem foco no design, ele é fundamental. Este departamento já existe. O que eu me referi é que dentro da área de RH se poderia começar a dar mais atenção à arte porque se as empresas não desenvolverem nisso, vamos matar a cultura, liquida-se com tudo..

NOI - Até porque se passa a maior parte do tempo dentro da empresa...

J. F. M.
-Exatamente. Então, se não tiver uma tendência para gostar e investir na cultura, aquilo termina. Tem que pelo menos incentivar, permitir que as pessoas tenham acesso. Veja nas vernissagens que acontecem hoje, olha se vê grandes astros da indústria lá..

NOI - Pois é..não têm tempo, ainda não têm o olhar...

J. F. M.
-É, mas se for a qualquer seminário profissional, estão todos lá... Isso é bom, claro, mas sem a cultura, não deixamos herança. A única coisa que deixa uma herança hoje é a arte. A Itália está aí para provar, com aqueles monumentos todos, Por que ela é o maior polo de atração turística do mundo? E aqueles museus da Espanha, que são grandes atrações turísticas? Nós, aqui, o que temos? Porque ainda investimos muito pouco em cultura. Poucas pessoas no Brasil fazem isso. No Rio isso já está um pouco mais avançado...

NOI - Não só não investimos como ainda destruímos...

J. F. M.
-Exatamente. Mas eu acho que isso vai, com o tempo, se desenvolver; as pessoas vão adquirindo gosto pela cultura e o empresário vai, devagarinho, investindo em obras de arte. E quando ele começa a se libertar um pouco, no dia a dia de pressão dentro da empresa, passa a pensar "como seria bacana se eu tivesse um quadro.." E tem tempo de pensar. Hoje ele ainda não tem tempo; só tem tempo de t
rabalhar.
NOI - Na sua opinião, o que distingue hoje um empresário com visão de futuro? Arrojo? Empreendedorismo? Criatividade? Tecnologia? Postura comunitária? Hospitalidade e humanização nos negócios? Sustentabilidade? Visão de arte? ....

J. F. M.
-Não só isso. Hoje tu não se pode olhar só numa direção. Como se diz, vários caminhos levam a Roma. Se for olhar só a sustentabilidade não se faz mais nada; acaba com o churrasco porque polui, se for a gás polui mais ainda. Tem que se preocupar com a empresa na sustentabilidade, proteção ambiental, tratamento de efluentes, isso tudo, sim. Os próprios sistemas e equipamentos de proteção da pessoa, tem que se preocupar muito com isso. Existe já até uma engenharia sobre isso. Mas também tem que se preocupar com a tecnologia, com a atualização que o produto da sua empresa tem no mundo. Para fazer isso tem que conhecer o mundo, correr mundo, falar com muitas pessoas, participar de seminários, congressos, feiras, ou seja, buscar a informação. E, logicamente, a cultura é a que mais se prejudica com tudo isso, porque não há tempo para ir a uma obra cultural. Não se deixa de ir a um seminário técnico para ir a uma vernissage, um empresário nunca vai fazer isso.

NOI - Mas deveria, ou poderia?

J. F. M
. -Poderia, na medida em que evoluísse, como digo, isso tem que caminhar junto. Pode-se atender tudo isso dando prioridades dentro de cada esquema. Não se pode pensar assim 'só vou me dedicar à cultura', ou 'só vou me dedicar a isso ou aquilo'. Tem que ter uma visão estratégica global, ver que o nosso mundo é composto de várias aldeias. Não é uma cidade só, um país só; é uma comunidade inteira e cada um tem seus princípios, anseios, projetos futuros..O projeto futuro de uma pessoa que vive no Sul do Brasil é completamente diferente de quem vive no Nordeste. Lá no Nordeste o cara pensa 'preciso botar uma casa na beira da praia', porque ele esta com a mente virada naquela direção. Nós aqui já temos uma maneira diferente, aqui pensamos numa calefação e lá pensam num ar condicionado. Então a corrente da cultura vem crescendo porém ainda não atingiu o estágio que a gente gostaria que atingisse.

NOI - Hoje Serra Gaúcha é uma marca de "produto bem feito", reconhecida no país e até fora dele. O senhor acha que a Serra Gaúcha tem consciência e atitude coletiva, ou seja, pensa e age como unidade de forma eficaz e suficiente?

J. F. M.
-Não. Acho que ainda somos muito individualistas. Caxiense é caxiense, gramadense é gramadense, bento-gonçalvense é bento-gonçalvense e assim vai. Existe um orgulho, quando a gente está fora daqui, de dizer que somos da Serra Gaúcha, mas aqui dentro somos muito individualistas. Não há ainda um trabalho forte de unidade..

NOI - O senhor acha que deveríamos pensar nisso ou não? Isso muda alguma coisa, ou não?

J. F. M.
-É uma boa pergunta. Eu não saberia dizer se isso amplia o foco ou se seria como no binóculo, na medida em que se amplia a imagem ela fica mais turva. Não sei... É difícil responder esta pergunta. É o tipo da coisa com a qual nunca me preocupei.

NOI - A união não fortaleceria?

J. F. M.
-Pode ser. Poderia ser criada uma identidade de Serra Gaúcha, uma unidade em cima disso. Por exemplo, hoje, não temos uma feira da Serra Gaúcha. Ou é de Caxias, ou de Bento ou de Farroupilha... Mas uma feira dos produtos da Serra Gaúcha não temos um evento específico para dar o orgulho da região. Fora do Rio Grande somos, acima de tudo, gaúchos mas falamos que somos da Serra. Mas no 'vamos ver final', ou tu é caxiense, ou de Bento...

NOI - O senhor foi professor, se tornou empresário, empreendedor, líder comunitário, estadual, nacional ... Ainda se sente um educador? O que sente necessidade de transmitir às novas gerações? E como pretende transmitir todo este seu conhecimento?

J. F. M
. -Veja, através destas participações que tenho em Fiergs, Fiesp, Associação do Aço, ANTP, e nessas empresas das quais participo no conselho de administração, em todas essas instâncias eu transmito exatamente o que aprendi, vendo o que aprendi. O meu patrimônio hoje é intelectual. O que aprendi, conheci, transmito e conheço muito esta parte de estratégia, eu diria que poucos conhecem tanto em estratégia no transporte. Se for falar em informática, sou uma nulidade. Mas em transporte, são poucas as pessoas que conhecem estratégias como eu conheço, porque sou um estudioso, me dedico, leio, conheço bem, conheço o mundo como funciona. E onde vou transmito o que sei. Pra juventude talvez não muito porque tenho pouco contato, a não ser quando faço palestras. Já fiz palestras sobre inovação, sobre qualidade... A de inovação fiz em vários lugares, até no Acre. Recentemente fiz na CIC de Farroupilha. Já fiz em congressos da CNI, na Fiesp, na Fiergs, então tem também gente nova que vai nestes encontros.

NOI - Nas suas análises pessoais e observações, principalmente quando em contato com o mundo em suas viagens e ações empresariais, que nichos de mercado a Serra Gaúcha poderia explorar melhor hoje, ou criar?

J. F. M.
-Na realidade não tenho pensado nisso porque neste período todo que vivo na Marcopolo, acabei fazendo minha cabeça ônibus, transporte. Hoje começo, com esta liberdade maior que tenho saindo do grupo de controle, a pensar em outras coisas, tanto que criei com o pessoal da Avianca-OceanAir, uma empresa chamada R2, na qual produzimos um componente radioativo nuclear para diagnóstico precoce do câncer. O Francisco Wisintainer sabe .. Então hoje disponibilizo a máquina PET (tomografia por emissão de pósitrons), que o Pompéia também já comprou. O Pet é um tomógrafo e nós geramos também o 18F-FDG (fluordeoxiglicose), produto à base de flúor que se injeta no paciente e ele entra no sistema linfático marcando as células com alta dosagem de glicose. Essas células são, em geral, as células cancerígenas. Depois a pessoa passa no Pet e ele marca direitinho onde está o câncer. Isso é uma coisa pioneira, hoje só tem PET o Mãe de Deus, uma máquina, e agora o Pompéia comprou outra. Mas veja bem o seguinte: o Brasil apresentou, no ano passado, 500 mil casos de câncer. Destes, 70% morrem por não ter um diagnóstico precoce. O câncer é um tumor. Se diagnosticar ele de maneira precoce, consegue-se, através de rádio, ou quimioterapia, ou mesmo cirurgia, curar e eliminar o câncer. Entretanto, depois que ele gerou metástases, aí ele se enraizou e não se consegue mais debelar. Então, o diagnóstico precoce é fundamental.

NOI - E isso começa a funcionar quando?

J. F. M.
-Já começou, no Mãe de Deus. Está lá o equipamento já funcionando e aqui, no Pompéia, deverá funcionar já em outubro deste ano. Só está esperando a licença do Conselho Nacional de Energia Nuclear. Nós temos o Ciclotron que é uma máquina nuclear, um acelerador de partículas. Ele decompõe o hidrogênio pesado que passa por uma placa de carbono, bate com o oxigênio e forma então o Flúor-18, que gera o 18F-FDG, a ser injetado no paciente. Isso é uma super-tecnologia. Somos uma empresa de fármacos radioativos que produzem radiofármacos. É toda uma equipe jovem, todos radiofarmacêuticos, físicos nucleares, porque para operar com o ciclotron tem que ser um físico nuclear. |Gente de altíssima capacidade técnica. E os hospitais tem o Pet, que é o equipamento que nós importamos. Comparando, nós somos a gasolina e eles têm o automóvel. Isso vai servir também para doenças coronarianas e nós vamos talvez em pouco tempo poder fazer previsão de Alzheimer. Isso é o que existe de mais alta tecnologia em termos oncológicos. Então eu me meti nisso, me juntei com o judeu Jose Efromovich, dono da Avianca, um grupo poderosíssimo. Ele tem uma empresa chamada Synergy. Na verdade eles me procuraram porque eu ia fazer isso sozinho. E como trabalham com material radioativo, me procuraram para fazermos isso juntos ao invés de sermos concorrentes. São gente finíssima, acabamos nos associando.

NOI - No Brasil, em que estados já tem?

J. F. M.
-Hoje, no Brasil, há poucos PET, deve ter uns seis ou sete em São Paulo. Ciclotron deve ter uns três ou quatro. Mas se formos olhar nos EUA, lá tem mais de mil PET.


NOI - Então tem um mercado todo para fazer?
J. F. M.
-Todo; está virgem. Depois de firmar bem isso, vamos ver se vale a pena colocar um Ciclotron a mais em São Paulo ou no Nordeste... Acontece que, veja, é um exame caro, na ordem de 4 mil reais..

NOI - Bom, se for ver, até nem tanto..

J. F. M.
-Mas é que o SUS não cobre. Hoje a demanda, no Mãe de Deus, é de seis doses por dia. Precisariam ser umas 30, no mínimo. São 500 mil casos de câncer por ano...

NOI - Precisaria popularizar o exame..

J. F. M.
-...Sim, precisamos trabalhar para poder enquadrar este exame no SUS. Então isso é um negócio novo em que estou me metendo e também estou entendendo agora. Vocês precisariam um dia ir ver a empresa, parece um filme de ficção científica, todos trabalhando com aquele aparato todo, o ar é puríssimo porque não pode ter partícula alguma por causa do material radioativo. Só no ar condicionado gastamos mais de 800 mil reais. O Ciclotron está dentro de um bunker; as paredes têm dois metros de espessura, imagine, é uma bomba, não se pode de forma alguma deixar escapar radiação. A porta dele é uma coisa impressionante, de 2,5 metros de espessura de aço com concreto por dentro.

NOI - E o senhor, então, não pára. Criou uma coisa, foi para outra; criou outra, foi para outra ainda e todas estão amarradinhas ao seu redor. O senhor teria ainda um sonho, uma missão, algo que almejaria realizar um dia, seja coletivo ou particular?

J. F. M
. -Meu grande sonho é poder expandir efetivamente esse negócio da saúde e vou precisar de muito apoio do Governo porque é preciso participação do SUS neste esquema. Salvar vidas é um negócio espetacular. Eu me importo muito com isso; não é um plano de vida, é uma ambição, uma missão, criar, desenvolver e poder popularizar. Para um dia um sujeito do SUS poder ir lá e fazer este exame também.

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