“Estou me sujeitando a um processo eleitoral; nele eu poderia, na eleição 2011, ser eventualmente consenso, como partir para uma disputa e, nela, poderia ganhar -batalhei pra isso- como poderia evidentemente também perder. Mas acima desse processo eleitoral tem uma coisa que me faz muito bem: eu tenho uma proposta, tenho um projeto inovador, renovador, moderno e plural para a indústria gaúcha. Qualquer que fosse o resultado da eleição, esse projeto ficaria, ficará e será um legado. Isso me deixa feliz. Mas em nome de um projeto maior e para que não houvesse um processo de divisão de industriais e sindicatos de indústria gaúchos, optamos coletivamente na região em nos abstermos desse processo eleitoral. Porém a idéia da candidatura permanece, a aspiração regional remanesce e nossa proposta remanesce. Às vezes temos que fazer um recúo estratégico ou mesmo abrir mão de uma batalha para não perder a guerra lá na frente. Nossa aspiração de chegar na presidência da Fiergs como região está absolutamente mantida”
Astor Milton Schmitt
Natural da pequena e caprichosa cidade de Vera Cruz, de origem alemã, Astor Milton Schmitt formou-se em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciou a profissão na Marcopolo, em Caxias do Sul, mas foi na Randon S.A. Implementos e Participações que construiu sua sólida trajetória passo a passo, tornando-se num dos executivos mais respeitados do Estado. Após mais de meio século exercendo sua liderança pessoal e empresarial, Astor Milton Schmitt quer mais. Após já ter atuado por três gestões como vice, tem um projeto em mãos e entusiasmo de sobra para garantir que não desistiu de disputar a presidência do Sistema Fiergs; apenas protelou sua candidatura para uma próxima eleição, por decisão unânime de seu núcleo eleitoral, em nome de um projeto maior. Nesta entrevista, revela fatos que poucos conhecem de sua trajetória, do seu trabalho e diz porque mantém sua decisão de disputar futuramente a presidência da mais representativa entidade industrial do nosso estado. Fala ainda do projeto que elaborou e já apresentou à entidade, baseado em mais de um ano de peregrinação por todo o estado ouvindo e debatendo as demandas da classe industrial gaúcha
NOI - Conte um pouco sobre sua infância em Vera Cruz e por que saiu de lá tão novo...
A.M.S - Na época que nasci Vera Cruz se chamava Vila Tereza, segundo distrito de Santa Cruz do Sul. Quando emancipou-se, em 1959, eu já não estava mais lá, mas minha mãe, aos 90 anos, ainda mora em Vera Cruz e é uma personalidade muito respeitada e querida na comunidade. Meus pais eram agricultores, filhos e netos de agricultores, como a maioria das pessoas da região. Mas decidiram cedo deixar a agricultura, no interior, e migrar para a Vila. O pai tornou-se motorista de ônibus e caminhão e a mãe costureira. Tive uma infância realmente bem humilde mas costumo dizer que aprendi muita coisa. Na simplicidade do lugar tive algumas lições que tornaram-se importantes para toda a minha vida. Primeiro o valor da família, a relação, respeito e a cumplicidade da vida familiar. O segundo a fé; tive uma educação religiosa muito forte e hoje tenho convicções e valores cristãos. E o terceiro valor que trago da minha infância é o de sempre respeitar os outros. Respeite quem está do seu lado, seja mais novo ou mais velho.
NOI - O senhor concluiu os estudos em Vera Cruz?
A.M.S. - Fiz o curso primário em Vera Cruz, em uma escola religiosa. Não havia muitas escolas. Estudei nos bancos da igreja, esse era o local onde a gurizada era alfabetizada. O prédio era simples, com 40 alunos de turmas diferentes todos juntos e apenas um professor. E ninguém desobedecia o professor. Até hoje lembro do meu grande alfabetizador, Elvino Sheffer. Depois fui pra Santa Cruz do Sul, onde pude cursar o antigo ginásio no Colégio Marista. Depois do ginásio recebi aquele recado clássico da época: “Agora tu já sabes ler e escrever então comece a da um jeito na vida”. (risos). Peguei uma trouxinha e parti para Porto Alegre. Foi bom. Na verdade eu gostava muito de mecânica desde pequeno, quando vivia metido na oficina onde meu pai consertava seu caminhão. E em Santa Cruz do Sul não havia na época oportunidades de especialização nesta área. Em Porto Alegre, com 16 anos, fiz minha carteira de trabalho de menor que guardo até hoje e já comecei a trabalhar enquanto estudava. Em 2006 comemorei 50 anos de trabalho ininterrupto. Com mais de meio século de trabalho contínuo já daria pra pensar em me aposentar... (risos)
NOI - Como chegou à Randon?
A.M.S. -Em 1968 concluí meu curso de engenharia mecânica. Na época era muito sacrificado fazer uma faculdade. Eu trabalhava e estudava ao mesmo tempo pra ganhar um dinheiro, não tinha quem pudesse fazer as coisas por mim. E no final de 1965, à procura de lugar para estagiar, descobri que em Caxias havia uma empresa buscando estagiários em engenharia mecânica. Peguei um ônibus e vim conhecer a empresa Carrocerias Nicola S/A, hoje Marcopolo. Lá eu consegui ingressar como estagiário e permaneci por 10 anos. Depois da Marcopolo passei para a Randon, onde estou há 35 anos. Entrei na empresa como engenheiro, sendo já no primeiro momento o principal executivo da área industrial e, a partir de 1978, quando a Randon constituiu sua primeira diretoria executiva e profissional, passei a participar da minha primeira diretoria até os moldes que conhecemos hoje da Randon. Atuei um primeiro período na área industrial, depois na área comercial, sobretudo no comércio exterior, e um terceiro período, que começou em 1999, como diretor financeiro e de relação com investidores da Holding. É uma trajetória bem interessante porque, sim, me envolvi na construção da Randon. A empresa tinha há 35 anos uma dimensão evidentemente muito mais limitada que a atual, muito menor. Mas tivemos, ao longo da vida essa oportunidade com fases importantes, liderados pelo nosso patriarca, Raul Randon, que hoje segue no nosso Conselho de Administração. Ele sem dúvida é o grande líder nesse processo e teve a sabedoria de reunir um grupo de pessoas que aderiu, seguiu e sempre foi leal a ele. Juntos construímos esse grupo de que hoje soma empresas. Além disso, operamos 15 fábricas mundo a afora, no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, China, Egito, Quênia e Argélia. Todo esse complexo emprega mais ou menos 11.500 pessoas. Isso é mais do que a população de muitas cidades brasileiras. Obtivemos no ano passado uma venda bruta na ordem de R$ 5.6 bilhões, o que nos deu, de acordo com revistas que fazem essa avaliação, o status de segunda maior empresa industrial de origem e controle gaúcho. Existem empresas industriais bem maiores, mas que são do governo ou de controle de outras regiões ou países, mas da nossa terra, do nosso Estado somos um dos grupos mais relevantes. Tenho um orgulho muito grande de ter participado e de estar participando dessa história, dá uma sensação de construção bem feita, de obra realizada e que segue se desenvolvendo.
NOI - O que o motiva a buscar a presidência do Sistema Fiergs?
A.M.S. - Participo há muito tempo e com muita intensidade do associativismo. Particularmente, na Fiergs, convivo desde 1992. Comecei a marcar presença na entidade na época do presidente Luis Carlos Mandelli, depois participei das duas gestões de Dagoberto Godói e da primeira de gestão de Renan Proença como membro da diretoria. Na segunda gestão de Renan Proença e nas duas de Paulo Tigre assumi como vice-presidente. Com uma história no associativismo e um pouco de vivência empresarial, aprendi muita coisa. Comecei minha trajetória muito humilde, muito pequeno e hoje faço parte de um grande grupo que passou pelas dores e convulsões de qualquer processo de crescimento. Nada aqui na Randon caiu do céu, tudo precisou ser feito. Com isto na bagagem e também um pouco de idealismo que vem de dentro do peito decidi me candidatar. Acredito que para chegar aonde cheguei e olhando de onde comecei, há uma evolução fantástica. Nesse processo, precisei de muitos apoios, primeiro do peito da minha mãe, depois do professor que me educou, daquele que me preparou profissionalmente e de quem me deu oportunidade. Penso que tudo deu certo na minha vida, consegui me sair bem em todos os aspectos: familiar, pessoal, material, profissional. Hoje, tem muita gente brotando e crescendo atrás de mim. São jovens, pequenas empresas buscando uma ajuda, um conselho. Por isso comecei a me perguntar se, neste estágio da vida, não seria hora de me dedicar um pouco mais e dar uma chance para quem vem atrás.
NOI - Presidir a Fiergs então seria uma forma de o senhor retribuir suas conquistas?
A.M.S. -A Fiergs e o Ciergs são um palco espetacular para fazer isso. Veja a obra que a entidade faz no sentido de assistir as novas empresas, identificar os problemas, as oportunidades da vida empresarial. Veja o papel social do Sesi, o papel educacional do Senai e por aí vai. Gerar oportunidades a pequenos, novos, médios e até a grandes empreendedores é um instrumento de retribuição pelo que a sociedade deu para nós. Esse é o meu lado idealista. Essa minha disposição de assumir e de disputar a presidência da Fiergs tem essas raízes; um pouco de idealismo, um pouco de história empresarial, de associativismo e o apoio de muita gente. Tudo isso junto estimula a ir nessa direção.
NOI - Como o senhor via o empresário Heitor Muller antes de tornar-se candidato de consenso à Presidência da Fiergs e como o vê hoje?
A. M. S. - O vejo de um jeito muito óbvio. Como eu cheguei a ser -e voltarei a ser futuramente- Heitor Muller é um candidato legítimo, ambos somos vice-presidentes da mesma gestão. No processo eleitoral que está correndo em determinado momento ele foi, obviamente, meu adversário e caso a disputa tivesse permanecido cada um teria que se vender do seu jeito. Mas, para que não houvesse um processo de divisão entre industriais e sindicatos de industria gaúchos, optamos coletivamente na região em nos abstermos desse processo eleitoral. Porém a ideia da candidatura permanece para um pleito futuro, a aspiração regional remanesce e nossa proposta remanesce.
NOI - Para o senhor, que atributos o presidente da Fiergs deve ter?
A. M. S. - Essa é uma discussão que estou tentando desenvolver progressivamente. A Fiergs, sobretudo, é uma a instituição que representa e lidera a indústria gaúcha. Quem quiser ser presidente da Fiergs tem que ter dois predicados principais: primeiro ser um nome que tenha credenciais para aspirar uma responsabilidade dessa magnitude, com preparo e vontade pessoal. Precisa ser uma liderança reconhecida, de história empresarial, história no associativismo. Esse conjunto de adjetivos forma as credenciais do nome. Mas existe uma segunda credencial importante: a visão de futuro da Fiergs. Pessoalmente, tenho estimulado e desenvolvido uma plataforma de gestão, um projeto concreto de gestão, que se perpetua, independentemente de minha candidatura nesta eleição.
NOI - Do que trata este projeto de gestão?
A. M. S. - Ele foi desenvolvido mediante campanha de sondagem. Minha candidatura foi apresentada ainda no início de 2010 e desde então fiz centenas de visitas, reuniões pessoais e coletivas, com presidentes de sindicatos, empresários no Rio Grande do Sul, buscando entender detalhadamente as suas aspirações, as suas necessidades, os seus elogios e suas críticas. Com toda essa coleta de dados, informações e posicionamento é que foi concebido um plano de gestão que tornei público e que tenho apresentado progressivamente em cada região. Essa plataforma tem quatro eixos básicos. A primeira é o eixo de visão estratégica: qual é a realidade da indústria gaúcha? Porque ela é assim? Quais são as linhas básicas para responder às suas necessidades? O segundo eixo é a questão da gestão e administração do sistema. Temos uma série de coisas importantes, que são as ações e encaminhamentos dessa visão estratégica, as ações de defesa das indústrias de qualquer tamanho, de qualquer região e setor. É a administração do sistema em si que é um complexo muito grande envolvendo Fiergs, Ciers, centro de eventos, centro de feiras, Sesi, Senai, IEL, enfim. O Sistema Fiergs tem um grande orçamento, relevante, e isso precisa de gestão ética, transparente e correta. Além disso, o Sistema é um grande provedor de serviços de assistência às empresas em educação elementar e inclusão social através do Sesi, e educação profissionalizante através do Senai. E esses serviços precisam ser os melhores sempre. O terceiro grande eixo é o posicionamento político, institucional. O Sistema Fiergs, a meu juízo, é uma casa política por excelência e por isso ela tem que ter uma estratégica política clara. Tem que estar calçada no respeito à lei e ao estado de direito, na defesa da livre iniciativa e no respeito à propriedade privada. Isso para mim é a essência da ideologia empresarial que a Fiergs tem a obrigação de defender. Acredito também que a casa deve interagir politicamente, de forma ativa, positiva e respeitosa com qualquer liderança legítima, independentemente do partido. Se hoje é da esquerda, vamos interagir com a esquerda. Se amanhã for da direita, vamos interagir com a direita. O que não concordo, e nunca escondi isso, é que essa instituição faça política partidária. O quarto grande eixo da proposta de gestão está relacionado evidentemente com a visão do momento presente da indústria, que tem algumas coisas óbvias acontecendo. Estamos vivenciando um afluxo impressionante de novas empresas. A maior parte é formada de micro, pequenas e médias. E elas precisam de proteção, cuidado, senão não conseguem sobreviver. Nós temos que ver as empresas que nascem hoje como as potencialmente grandes corporações de amanhã. Não conheço nenhum grande que não tenha sido pequeno. Então essa realidade do Rio Grande do Sul, de ser um nascedouro de empresas e de empreendedorismo, precisa ser de alta prioridade e acompanhamento da Fiergs. Temos cadeias industriais no Rio Grande do Sul que dentro da nova realidade econômica brasileira de hoje estão apresentando um grande desenvolvimento, crescimento e expansão e hoje isso tem um papel mais relevante do que tinha no passado. Exemplo disso é a construção civil, que precisa de atenção e apoio. O Rio Grande do Sul vem tendo novas cadeias industriais e isso é absolutamente normal, de tempos em tempos novas cadeias sempre surgem. Há 15 anos, qual era a grande novidade? A cadeia automotiva, as montadoras. Tanto se falou em GM que deu certo e de Ford que não deu certo. Esse era o grande evento da indústria na época. Hoje temos outros. Quem desconhece os investimentos elevadíssimos que já foram e continuam sendo feitos na cadeia da madeira, celulose e papel? Algumas regiões estão sendo cobertas por árvores, por reflorestamento. Quem desconhece a nova realidade da Zona Sul, do pólo naval de Rio Grande, da cadeia de óleo e gás? Quem é que desconhece o grande potencial da área de biocombustível? Passo Fundo tem um grande projeto nessa área bem como outros municípios do Estado. São novas cadeias produtivas que estão se agregando às tradicionais. E isto precisa de atenção especial.
NOI - O desenvolvimento industrial da Serra Gaúcha tem atraído uma migração intensa de regiões menos favorecidas neste setor dentro do estado. Se por um lado isso agrega crescimento na Serra e situações de quase abandono em outras regiões, também provoca o aumento de problemas sociais de difícil controle e as cidades da Serra precisam avaliar até que ponto querem crescer sem perder a qualidade de vida e mantendo o foco na sustentabilidade. Para estabelecer o equilíbrio é preciso haver uma ação eficaz de desenvolvimento industrial nestas outras regiões. De que forma o senhor entende que a Fiergs pode contribuir mais no desenvolvimento industrial do Rio Grande do Sul como um todo?
A. M. S. - A Fiergs precisa estar comprometida com o desenvolvimento de toda a indústria gaúcha: a tradicional, as novas cadeias, novos segmentos, novas regiões. Não podemos discriminar ninguém. Sempre há espaço para o desenvolvimento industrial, é uma fonte inesgotável e pra tudo existe uma solução. O que está mudando é o conceito de desenvolvimento. Hoje vejo mais preocupação com sustentabilidade e entendo que se deva conjugar harmoniosamente três coisas: primeiro, não posso imaginar a prática de sustentabilidade no meio empresarial se não houver empreendedorismo economicamente viável, sem resultados. Segundo, mesmo gerando resultados, o empreendimento tem quer se socialmente justo com aqueles que constróem estes resultados. A melhor empresa é a que sabe valorizar os recursos humanos e deixá-los altamente comprometidos, preparados e recompensados. E o terceiro pilar da sustentabilidade é o ambientalmente correto. Foi-se o tempo em que se podia jogar o veneno no terreno vizinho. Isso não existe mais. Essa consciência está começando a se expandir. As pessoas, as empresas, as cidades estão se dando conta de que sem cuidarmos do nosso ambiente não vamos deixar nada para nossos filhos, nossos netos.
NOI - “Toda unanimidade é burra”, disse Rudolph Hess quando Adolph Hitler se intitulou “Fuher”, frase que se notabilizou depois através de Nelson Rodrigues. Mas, se por um lado Saddam Hussein foi reeleito no Iraquel com 100% dos votos e 100% dos eleitores, por outro George Washington também foi eleito como primeiro presidente dos Estados Unidos por unanimidade em 1789. O Sistema Fiergs, por sua vez, tem tido grandes presidentes de consenso mas, por ter vivido uma experiência negativa em 1986 quando a disputa de dois candidatos só se resolveu judicialmente um ano após a eleição, criou uma certa aversão à disputa, um temor. Por outro lado, a disputa suscita o questionamento, provoca o eleitor a refletir sobre o que entende ser melhor. O senhor concorda que a unanimidade seja sempre boa e a disputa seja um problema pra Fiergs? Será que não pode haver uma disputa sadia e propositiva, no caso, para a entidade?
A. M. S. - É bem verdade que tem predominado o consenso. Acredito que o consenso inteligente, a composição limpa, seja o ideal, o melhor que pode acontecer. O desenvolvimento de um processo de negociação, de composição, visando um consenso inteligente, transparente e claro é o ideal, é o desejado. Mas há um ditado que diz: “o ótimo pode ser inimigo do bom”. Então, quando se instalou um processo de disputa o vi com absoluta naturalidade. Não havia nada de errado, era algo absolutamente democrático. Fazemos isso na política institucional em tempo integral e funciona nas empresas. A disputa é democrática e tem como subproduto o processo de renovação das pessoas. Os envolvidos no processo são também em maior volume do que no processo de consenso. Assim há variação de opiniões. Essa renovação mais acelerada é positiva ou não é? No caso da Fiergs, com consenso, em tese a renovação é de 30%. Em uma disputa com dois, a renovação seria de 50% ou pouco mais. Em tese, se houvesse três candidatos seria de 66%, ou seja, mais agressiva. Cada um pode ver isso de acordo com o que lhe convém. A circunstância é democraticamente valida e não poderíamos nos escandalizar com ela. Mas sem duvida o desenvolvimento de uma composição buscando um nome de consenso de forma desprendida, bem intencionada é sempre o mais desejado.
NOI - Como o senhor se sentiu quando o presidente Paulo Tigre mostrou uma preferência pelo vice-presidente Heitor José Muller?
A. M. S. - Eu fui o primeiro a iniciar o processo de sondagem para uma candidatura. Sou, dos três nomes que se lançaram em 2010, o que tem maior longevidade, ou senhoridade como vice-presidente em três gestões e, portanto, evidentemente, esperava que isso pudesse causar um diferencial. Não preciso dizer que o anúncio de Paulo Tigre sobre uma suposta preferência pelo nome do Heitor me surpreendeu e na hora não me agradou. Mas assumi a posição de continuar na disputa e é isso que continuarei fazendo futuramente, em função de todas as credencias que já comentei e defendendo uma proposta de gestão muito clara que submeti a todos os presidentes de sindicatos e entidades. Depois de conversar com centenas -centenas realmente, no plural- de sindicatos, lideranças, empresários em todo o Estado e muitos deles me estimularam a ir adiante, no processo de disputa desse nível se chega a um ponto em que o recuo é complicado e pode ter consequências muito sérias pra quem se comprometeu tanto com as bases. Isto eu respeito, mesmo com uma abastenção momentânea em nome de um projeto maior.
NOI - O senhor acha que a declaração de Paulo Tigre chegou a enfraquecer o fortalecer sua proposta de candidatura?
A. M. S. - Não tenho essa resposta. O que tenho convicção é que minha base, meu o núcleo de apoiadores, continua inalterado e voltaremos a buscar a presidência futuramente.. Essa questão de preferência é um negócio extremamente dinâmico. Nesse jogo, a cada 24 horas tudo muda, você vive uma nova realidade. Seria muito temeroso e muita pretensão da minha parte lhe dizer que perdi ou ganhei com isso. O que tenho certeza é que a eleição é um processo dinâmico, tudo muda constantemente.
NOI - Percebe-se que o senhor está gostando bastante deste processo, não é?
A. M. S. - Sim, sem dúvida, talvez por essa minha convicção, minha confiança, pelo meu bom astral... tudo tem a ver com as convicções. Estou me sujeitando a um processo eleitoral; nele eu poderia, na eleição 2011, ser eventualmente consenso, como partir para uma disputa e, nela, poderia ganhar -batalhei pra isso- como poderia evidentemente também perder. Mas acima desse processo eleitoral tem uma coisa que me faz muito bem: eu tenho uma proposta, tenho um projeto inovador, renovador, moderno e plural para a indústria gaúcha. Qualquer que fosse o resultado da eleição, esse projeto ficaria, ficará e será um legado. Isso me deixa feliz. Mas em nome de um projeto maior e para que não houvesse um processo de divisão de industriais e sindicatos de indústria gaúchos, optamos coletivamente na região em nos abstermos desse processo eleitoral. Porém a idéia da candidatura permanece, a aspiração regional remanesce e nossa proposta remanesce. Às vezes temos que fazer um recúo estratégico ou mesmo abrir mão de uma batalha para não perder a guerra lá na frente. Nossa aspiração de chegar na presidência da Fiergs como região está absolutamente mantida.
NOI - Pessoalmente o senhor tem um sonho, uma missão, algo que ainda quer realizar?
A. M. S. - Sou um eterno sonhador. Não consigo ficar parado, por isso trabalho há mais de meio século e não tenho a menor intenção de parar. Trabalhar me faz muito bem e acho que quem tem esse instinto, essa personalidade de sempre mexer com alguma coisa, sempre desenvolver algo, certamente não é um bom candidato a ir pescar ou ir para praia...
Astor Schmitt fez um recuo estratégico em nome da não divisão. A decisão foi de um colegiado que presta seu apoio desde o início. O grupo se retira da eleição, mas continuará com o projeto de gestão, ou seja, o grupo continuará se preparando para a próxima. A decisão foi anunciada por Astor durante reunião-almoço da CIC de Caxias do Sul dia 14 de março quando leu o texto abaixo e foi aplaudido pela platéia de 180 pessoas.
EM NOME DE UM PROJETO MAIOR
Há um ano e meio, por disposição pessoal e em nome de uma aspiração regional, decidimos sondar a receptividade que teríamos para concorrer à Presidência da FIERGS/CIERGS. Com o conhecimento prévio do atual Presidente, percorremos o Estado, nos deparamos com diferentes realidades, ampliamos nossa visão da indústria gaúcha e, mais do que um nome e uma aspiração regional, chegamos a um projeto e uma proposta de ação para o Sistema. Esta proposta surgiu do diálogo com as bases empresariais que, ousamos dizer, pela primeira vez foram consultadas com esta amplitude.
Tal projeto de gestão, que propõe ações objetivas voltadas ao desenvolvimento harmônico e sustentado do Estado, contempla as principais áreas de atividade, as diferentes regiões gaúchas e todos os portes de empresas, especialmente as micro e pequenas, que gravitam ao redor das maiores e que, um dia, também serão grandes.
Como fruto de uma equilibrada e ampla articulação com quem produz e gera empregos, conquistamos uma enorme receptividade ao nosso projeto. Colhemos apoio e incentivo de um grupo diversificado de companheiros, que esteve aberto a nos receber nesta jornada, desde o primeiro momento em que a presidência do Sistema FIERGS/CIERGS se tornou um projeto a ser construído com base em parcerias fortes e verdadeiras.
O Sistema FIERGS/CIERGS, entretanto, foi exposto ao risco iminente de divisão entre os Industriais e os Sindicatos, dada a sinalização clara de quebra do discurso público de neutralidade e conciliação por parte da liderança maior da Casa e que conduziu o processo para um caminho pouco transparente, desigual, desleal, obscuro e polarizado.
Embora o apoio construído, sentimo-nos na obrigação de nos abstermos deste processo eleitoral, em respeito à unidade da classe industrial gaúcha, nominadamente dos Sindicatos e Empresários por ela representados. Mais do que um nome, uma região que responde por parcela importante da produção industrial gaúcha, um polo de desenvolvimento que engrandece as estatísticas estaduais dentro do contexto brasileiro se considera vetado.
Arriscamo-nos a dizer, com convicção, que mais do que um nome e mais do que uma região, o veto oficial foi dado também a um projeto de gestão plural, renovadora e de posicionamento da mais importante entidade industrial gaúcha e que está entre as maiores do Brasil.
Abstemo-nos deste processo juntamente com os colegas que se engajaram nesta caminhada, porque não queremos ser protagonistas de uma possível cisão do Sistema FIERGS/CIERGS. Mesmo assim, não estamos desistindo de um projeto que construímos a muitas mãos para a Entidade e, acima de tudo, para contribuirmos com o desenvolvimento do nosso Rio Grande do Sul, que perde espaço no cenário nacional, da mesma forma que a indústria gaúcha se enfraquece frente ao PIB do Estado. Três anos passam rápido demais para quem tem projetos e legítima aspiração regional.
Aos companheiros que estiveram conosco durante todo o período de busca de conhecimento e de apoio, fica o profundo agradecimento pela honra da convivência produtiva e da confiança depositada. Fica também o registro de que, nem sempre, vencer significa participar diretamente de uma disputa eleitoral. A vitória também está no que se construiu. E nós construímos uma proposta de gestão a ser continuadamente aperfeiçoada, para aplicação num futuro bem próximo, além de abrir o debate sucessório para um processo de escolha transparente e democrática, em sintonia com os novos tempos.
À Entidade e aos Companheiros com os quais convivemos ao longo de duas décadas de atuação associativista, nosso sentimento de amizade e do dever cumprido, na certeza de que a FIERGS/CIERGS, com sua longa e invejável história, está acima das atitudes que ora vivenciamos e de um pontual processo eleitoral. Este é apenas um recuo estratégico, em nome da unidade da Entidade de Classe em que militamos há tanto tempo.
Contemplada esta etapa, eu, particularmente, permaneço em minha atividade executiva e empresarial junto às nossas empresas, de reconhecida relevância no cenário regional gaúcho e global, sem deixar de contribuir para o debate de ideias e o aperfeiçoamento da instituição que integramos, embora abdiquemos de qualquer cargo.
A todos, o meu agradecimento pelo tanto de experiência e aprendizado que estou acumulando.
Muito obrigado e até logo.
Astor Milton Schmitt
Diretor corporativo e de relações com investidores das Empresas Randon
Vice-Presidente da FIERGS/CIERGS